quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Minhas 127 Horas (Parte Final)

Medo. Eu recebi a última lição sobre medo naquela tarde. 126 horas de rosto inchado, preso em isolamento do mundo. A vizinha tinha sofrido um derrame cerebral, e nós dois estavamos naquele quarto por motivos diferentes, mas não totalmente diferentes. Ela não podia sair de qualquer jeito, e eu não tinha que trabalhar por causa do inchaço. Não havia nada que eu precisasse fazer em casa, então decidi ficar ali, ao lado daquela cama, por mais um tempo.
"Ela leu seu blog, sabia?", a filha me disse. Não vou entrar em detalhes de como ela achou esse espaço, só digo que tem algo a ver com A Síndrome do Gênio. O mais interessante foi saber que ela era uma psicóloga. Alguém que consertou a mente de tanta gente, agora foi traída pela sua própria.
A próxima hora de lucidez começou com ela me dizendo que eu tenho tanto medo. Eu não sei, mas talvez ela tenha razão. Eu já perdi tanta coisa que agora eu tenho medo, e até aquele momento, eu não tinha certeza de que. Acho que no fim da vida a gente vê tudo mais claro, mesmo quando não se sabe de tudo, mesmo quando se tem Alzheimer.
Depois que a mulher da minha vida se casou com outro cara, eu vivia com medo de nunca mais encontrar alguém como ela. Naquela tarde, eu descobri que não era esse o meu verdadeiro medo. O meu medo era de encontrar, e não estar pronto. Mas, 127 horas depois do meu vigésimo sexto aniversário, eu aprendi o que era necessário pra estar pronto, pra tentar esquecer o medo. 127 horas depois, passei a mão pelo meu rosto e percebi que o inchaço tinha finalmente desaparecido.
Ali, enquanto os enfermeiros a preparavam para a volta ao hospital, e visto que nenhum deles me perguntou sobre o meu rosto, o quasimodo recebeu uma redenção final.
"O mundo te criou pra ser assim, distante, então não tenha medo."
Aquelas foram as últimas palavras, as que ficaram. Aquela voz se calou pra sempre, três horas depois. Mais uma alma se juntava ao meu bom amigo Weaver, e me obrigava a viver por ela. Já aprendi a me despedir das pessoas.
E acho que não tenho mais medo.

2 comentários:

Aline Fernandes disse...

Oi Jardel!

estava aqui te lendo e fiquei extremamente curiosa com a história dos seus dentes... mas não estou comentando por isso... vc me fez pensar sobre meus medos. Sempre penso neles e nunca consigo fazer um movimento contra a paralisia que me causam, ou, pelo menos, que me permita viver um pouco mais. Sinto que estou sempre a margem para "facilitar" certas dores. Evitei ao máximo de sofrer até que esse ano senti a dor de uma perda que racionalmente sei que não volta, mas ouço sempre uma vozinha dizendo que tudo pode mudar.. não vai mudar e de nada adiantou me proteger.

Jardel Elias disse...

Oi, Aline. :)

Realmente, na maioria das vezes as coisas não mudam. Essa foi outra coisa com o qual eu aprendi a lidar a muito tempo. Quando as coisas não mudam, acho que é sinal de que a gente tem que se mover. Sei lá... comigo funciona.

Abraços.