"Então, Jardel... lembrei que você tava aprendendo a tocar piano no Ensino Médio. O que aconteceu? Desistiu?"
Na verdade, só aprendi o básico mesmo do piano, e aproveitei mais a teoria musical. Mas não é sobre a primeira parte da frase que quero falar, é sobre a segunda. Tenho pensado ultimamente no verdadeiro sentido do verbo "desistir". O dicionário define como: cancelar, interromper, abandonar. Eu defino como desfazer vínculos. Eu sei porque fiquei um bom tempo achando que tinha desistido de uma coisa, mas que estava sempre lá: isso não é desistir. Desistir é deixar ir, é se desprender. Aprendi que desistir é muito diferente de ficar olhando de fora e não tentar, porque por mais que você não tente, o vínculo ainda está ali; nas duas situações, você não tem como ganhar o objeto do seu desejo, só que quando você desiste propriamente, você está livre - a dor te abandona e novamente nos aproximamos da vida que podemos ter, aquela para os quais éramos cegos, surdos e mudos.
E eu levei muito tempo para entender o que era desistir, mas a lacuna que fica lhe dá a oportunidade de preenchê-la, quem sabe, com aquilo que você no fundo sempre achou que valeria a pena.
Há coisas que eu penso. Há coisas que me dizem, e há coisas que eu vejo. Tudo isso não é nada além das variáveis da equação que me define como ser humano. Que tenta me explicar como alguém, como se isso fosse possível.
sábado, 15 de outubro de 2011
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Oceano Atlântico
Nunca deixe para fazer amanhã o que pode fazer hoje. Essa frase talvez seja a mais clichê que já tenha ouvido, e talvez o fato de ter se tornado tão comum tenha me feito deixar de notar a verdade que ela encerra. Eu vivo deixando coisas pra depois e isso vai, antes que eu perceba, atrasando a minha vida.
Eu digo isso porquê estive navegando por mares misteriosos no último fim de semana, indo ao Rio para o casamento da minha prima, e esse tipo de viagem (no qual eu inevitavelmente viajo com gente que eu conheço), me põe pra refletir um grande preço que eu pago pra fazer as coisas que eu faço. Já fazem três anos e meio de Blogger, estou escrevendo um livro que já está no meio, há umas duas semanas voltei a desenhar e ainda estou no Mestrado em Física. Três, dessas quatro atividades, me exigem um poder criativo acima da média, e eu percebo que esse poder criativo exige certos sacrifícios que, até um certo momento naquela praia, eu não tinha percebido.
Um vento cortante, céu nublado, e o som das ondas quebrando na minha mente, me fez olhar pra trás e perceber o que eu havia deixado passar durante todos esses anos: a minha produção depende essencialmente da minha necessidade. Eu tenho que precisar das coisas, não que tê-las, e isso me fez enxergar o que já vinham me dizendo desde que aquele ônibus partiu de Vice City, levando com ele a responsável pela minha transfiguração: se ela voltasse, eu nunca terminaria as coisas que eu comecei.
E, depois de um par de anos talvez, eu aceitei o fato de que ela não volta porque sempre soube disso, porque ela sempre entendeu o motor que me faz funcionar. Isso me lembra que talvez um dia eu não precise criar mais nada, e que aquela praia seja o lugar perfeito para certos encontros, mas que a alma que me fez nascer denovo, muito antes disso, será aquela que vai constituir família, e pelas minhas criações criarei seus filhos, sem nunca conhecê-los.
Uma tola mocinha sem nada na cabeça me ensinou a criar, um gênio me ensinou o que é preciso para terminar o que comecei.
domingo, 25 de setembro de 2011
A História de uma Decisão.
É isso o que acontece quando duas pessoas cientes de sua capacidade, e do impacto que elas podem ter no mundo, individualmente, se encontram. Um dia eles se vêem diante de uma encruzilhada que pode mudar para sempre a vida delas: elas podem escolher trilhar o caminho nobre, o que lhes permite ajudar o seu ambiente e as pessoas ao seu redor a terem vidas melhores, de acordo com a sua contribuição e sua disponibilidade, ou podem trilhar o caminho da renúncia, onde elas negam às outras pessoas aquilo que lhes torna especiais, constituem a responsabilidade de uma família e se retiram à passos tímidos para as sombras da felicidade.
Tudo acontece assim:
"Estamos diante, já há algum tempo, de uma importante decisão; mas eu te conheço a mais tempo do que você me conhece, e sei que você é o mais capacitado a carregar esse tipo de fardo. Você não pode renunciar àquilo que é certo, e mesmo que seja necessário abrir mão das coisas maravilhosas que você vê, e que só o amor é capaz de proporcionar, tenho certeza de que pode encontrar uma recompensa diferente no caminho que escolher trilhar.
Ninguém é capaz de encarar a responsabilidade de ser amado por você, e ninguém é capaz de corresponder às suas expectativas neste ponto, e é tudo o que você deve saber para seguir em frente.
Eu seguirei pelo outro caminho... terei filhos, talvez, e eles viverão no mundo que você ajudará a criar; viverão no mundo que você conhece com seu - hoje atrás de suas sobrancelhas, amanhã atrás de sua janela - e provavelmente, daqui a alguns anos, te direi pela minha vida como seria a sua se tivesse encolhido esquecer seu dom, mas você não precisará me contar da sua, pois já saberei dela quando for ao supermercado, quando for colocar o lixo pra fora, quando pagar as contas.
Você levou muito tempo para esquecer tudo o que precisava, para entrar nessa paz. Não volte atrás agora."
E assim os anos hão de passar, e as mudanças no mundo ocorrerão através de grandes mentes, que em algum momento um dos dois deixará pra trás algo que valorizava, para nos dar um facho de sua capacidade, tendo como único motivo poder criar o mundo dos filhos do outro, e não conhecer nenhum deles. Mas, até o momento em que decidem, não há como dizer quem é quem.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Retomando um Castelo Perdido.
Pra quem ainda não sabe, eu sei desenhar. Acho que eu sabia desenhar muito antes de saber o que eu desenhava: fazia uma casa antes de saber o que era uma casa, fazia um carro antes de saber o que era um carro, e pra mim, desde pequenos, as formas dos objetos eram tudo, muito antes de saber para que exatamente eles serviam.
O caso é que, durante muito tempo (mais ou menos três anos), eu não me dediquei à essa nobre atividade. Durante os últimos anos eu deixei as canetas nanquim apodrecerem numa gaveta, e tentei me convencer de que aquilo era por uma boa causa. Eu era como um fumante que decidiu parar de tomar café para ver se parava de fumar. Estava disposto a deixar para trás tudo aquilo que envenenava a minha mente, e me levava a me enveredar em um caminho que me puxava para trás, que me trazia um sentimento que poderia me matar. E durante todo esse tempo, aquelas canetas esperaram, quietas na gaveta da escrivaninha, pelo seu momento de voltar. E agora que o horizonte, ainda trêmulo, soa mais tranquilo, eu resolvi pôr fim à espera. A grande maioria das coisas que me levaram a parar de desenhar já não estão mais comigo, e só ficou aquilo que me estimula, que me leva a acreditar que, se você não fizer por você, ninguém fará.
Como um grande amigo já me advertiu uma vez, você pode ter todo o talento do mundo, e pode ser capaz de coisas incríveis, mas enquanto o "poder" não se torna "fazer", é tudo em vão. Você morre e isso tudo se perde, e ninguém jamais vai ficar sabendo disso.
E foi por isso que eu fiquei assim, como uma criança que reaprende a andar, depois de ficar anos sentada; como um homem que reaprende a lutar, depois de mergulhar na penumbra do ócio e do comodismo.
Caminho novamente para a linha de frente, com as armas na mão: papel e caneta.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
O Filho Torna-se o Pai
Descobri essa semana que meu café é muito forte, forte de levantar defunto. Foi quando eu acabei colocando uma "colherinha" a mais de pó e não notei diferença nenhuma. Meu pai, aliás, já tinha me dito isso uma vez.
Segunda-feira passada, como de costume, é um dos dois dias da semana em que eu tenho que levantar cedo. E lá estava eu, quinze pras seis da manhã, levantando da cama. Cheguei na cozinha e tirei todo o meu bom e velho material do armário da cozinha: Filtro de papel, pote de pó de café, pote de açúcar e suporte para o filtro. Enquanto arrumava o resto das coisas, pus a água a ferver. Não demora muito tempo, vocês sabem, para que ela atinja a temperatura ideal e as bolhas comecem a aparecer. Foi pouco depois disso, quando o pó preto se misturava à água cristalina e fumegante que eu ia derramando, que me veio uma lembrança.
Me lembrei de quase sete anos atrás, quando eu ainda tinha que levantar cedo todos os dias, de quando éramos uma família unida mas não tão feliz, e de que era meu pai quem fazia aquilo que eu estava fazendo. Eu e minha irmã, ainda relutantes em encarar o caminho para o Colégio, esperávamos um ao outro para usar o banheiro: um banho frio, o cafezinho do papai e escovar os dentes. Segunda-feira, era eu quem fazia o café, era minha agora a responsabilidade da minha vida.
Em mim estava consolidado o nascer de um novo herói, daqueles que Weaver imaginava quando ainda estava vivo, quando me pediu para abandonar tanta coisa que jamais me traria àquele momento, na cozinha. Enquanto a água ia acabando, e a garrafa se enchendo, eu tive certeza do que eu era: Eu era definitivamente meu...
Segunda-feira passada, como de costume, é um dos dois dias da semana em que eu tenho que levantar cedo. E lá estava eu, quinze pras seis da manhã, levantando da cama. Cheguei na cozinha e tirei todo o meu bom e velho material do armário da cozinha: Filtro de papel, pote de pó de café, pote de açúcar e suporte para o filtro. Enquanto arrumava o resto das coisas, pus a água a ferver. Não demora muito tempo, vocês sabem, para que ela atinja a temperatura ideal e as bolhas comecem a aparecer. Foi pouco depois disso, quando o pó preto se misturava à água cristalina e fumegante que eu ia derramando, que me veio uma lembrança.
Me lembrei de quase sete anos atrás, quando eu ainda tinha que levantar cedo todos os dias, de quando éramos uma família unida mas não tão feliz, e de que era meu pai quem fazia aquilo que eu estava fazendo. Eu e minha irmã, ainda relutantes em encarar o caminho para o Colégio, esperávamos um ao outro para usar o banheiro: um banho frio, o cafezinho do papai e escovar os dentes. Segunda-feira, era eu quem fazia o café, era minha agora a responsabilidade da minha vida.
Em mim estava consolidado o nascer de um novo herói, daqueles que Weaver imaginava quando ainda estava vivo, quando me pediu para abandonar tanta coisa que jamais me traria àquele momento, na cozinha. Enquanto a água ia acabando, e a garrafa se enchendo, eu tive certeza do que eu era: Eu era definitivamente meu...
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
A Injustiça ao que Persegue
Sala nova, laboratório novo. "É tão estranho ver o Jardel entrando na sala do lado..." disse uma amiga minha. Depois da comemoração da etapa vencida, agora é tempo de voltar ao trabalho, mas agora estou mais ainda voltado aos meus outros pequenos projetos: algumas páginas de um livro inacabado, alguns desenhos no fundo de uma gaveta, partituras do Super Mario esperando minha preguiça deixar eu trazer o teclado pra Vice City...
Mas estes são os projetos que eu abracei. São aqueles que, depois de uma análise minuciosa de tudo o que já passou, e de tudo o que está por vir, passaram no meu teste do "É possível, então farei.". Não peguei no computador para falar deles, quero falar dos outros.
Perseguir é uma arte, é tentar encontrar uma maneira de ir do "sem" até o "com", e trilhar cada passo que sua mente cuidadosamente previu, e que baseada em alguma lógica, admite que tudo dará certo. Nem sempre é assim. Devemos ter a idéia de que no mundo há outras pessoas, com objetivos diferentes do seu, e alguns até conflitantes, e que se elas não quizerem, acredite, não vai dar certo. Eu passei a compreender que certas coisas não vão mudar porque você as quer diferentes, e não vão continuar as mesmas só porque lhe convém. Eu aprendi que, quando se trata de um caminho errado, quanto mais cedo perceber melhor, e que sempre há outro na direção oposta.
E passei a entender que quanto mais você se afasta de um objetivo, mas esse fantasma vai te assombrar. Muitas vezes isso vai te fazer pensar: "Se eu ainda estivesse procurando, hoje teria encontrado.", mas isso, além de natural, é apenas consequência de não se querer mais. É um lembrete de que é importante saber, simplesmente, deixar pra lá - não importa o que aconteça.
Então é isso: adeus pra quem fica, que estou indo embora.
Mas estes são os projetos que eu abracei. São aqueles que, depois de uma análise minuciosa de tudo o que já passou, e de tudo o que está por vir, passaram no meu teste do "É possível, então farei.". Não peguei no computador para falar deles, quero falar dos outros.
Perseguir é uma arte, é tentar encontrar uma maneira de ir do "sem" até o "com", e trilhar cada passo que sua mente cuidadosamente previu, e que baseada em alguma lógica, admite que tudo dará certo. Nem sempre é assim. Devemos ter a idéia de que no mundo há outras pessoas, com objetivos diferentes do seu, e alguns até conflitantes, e que se elas não quizerem, acredite, não vai dar certo. Eu passei a compreender que certas coisas não vão mudar porque você as quer diferentes, e não vão continuar as mesmas só porque lhe convém. Eu aprendi que, quando se trata de um caminho errado, quanto mais cedo perceber melhor, e que sempre há outro na direção oposta.
E passei a entender que quanto mais você se afasta de um objetivo, mas esse fantasma vai te assombrar. Muitas vezes isso vai te fazer pensar: "Se eu ainda estivesse procurando, hoje teria encontrado.", mas isso, além de natural, é apenas consequência de não se querer mais. É um lembrete de que é importante saber, simplesmente, deixar pra lá - não importa o que aconteça.
Então é isso: adeus pra quem fica, que estou indo embora.
domingo, 7 de agosto de 2011
Pelos Seus Filhos
Já depois de uma semana no Mestrado, a coisa que tenho achado mais estranho, devo admitir, é o fato de estar acordando no horário em que normalmente ía dormir. Mudar de sala, assistir menos aulas, e oficialmente dar aula em uma matéria da UFV não é nada comparado a isso.
Ontem, dia 6 de agosto, porém, foi um dia "meio que de luto" pra mim. Já se foram três anos que meu grande amigo Jonas Weaver se foi, e sempre que esse dia passa eu me pego pensando na promessa que fizemos (ver Um Pacto pela Eternidade). E, nesse contexto, pensei entender no que meu contexto atual influencia essa decisão de futuro. Vejo meus professores, e o rumo que o caminho segue. No fundo, são pessoas extraordinárias, que dizem coisas incríveis que apenas uma fração reduzida da humanidade é capaz e compreender. Muito embora a sua capacidade seja extraordinária, e não tenha vindo sem esforço, mas muito pelo contrário, essa mesma capacidade pode fadá-los ao esquecimento e até mesmo a um certo "isolamento intelectual" se é que me entendem.
Para que eu cumpra a promessa ao meu amigo Weaver, a Física não me é suficiente. Nós, dizia ele, temos que nos esforçar para deixarmos nossa marca no mundo, algo de que as pessoas se lembrem, algo que elas possam passar para seus filhos, e não precisa necessariamente ser algo incrível, ou algo de natureza quase sobrenatural: só precisa ser algo importante.
Buscando a importância, então, vou dedicando parte do meu tempo à tarefa de me tornar eterno, por uma causa nobre, antes que tudo se perca pelo caminho.
Ontem, dia 6 de agosto, porém, foi um dia "meio que de luto" pra mim. Já se foram três anos que meu grande amigo Jonas Weaver se foi, e sempre que esse dia passa eu me pego pensando na promessa que fizemos (ver Um Pacto pela Eternidade). E, nesse contexto, pensei entender no que meu contexto atual influencia essa decisão de futuro. Vejo meus professores, e o rumo que o caminho segue. No fundo, são pessoas extraordinárias, que dizem coisas incríveis que apenas uma fração reduzida da humanidade é capaz e compreender. Muito embora a sua capacidade seja extraordinária, e não tenha vindo sem esforço, mas muito pelo contrário, essa mesma capacidade pode fadá-los ao esquecimento e até mesmo a um certo "isolamento intelectual" se é que me entendem.
Para que eu cumpra a promessa ao meu amigo Weaver, a Física não me é suficiente. Nós, dizia ele, temos que nos esforçar para deixarmos nossa marca no mundo, algo de que as pessoas se lembrem, algo que elas possam passar para seus filhos, e não precisa necessariamente ser algo incrível, ou algo de natureza quase sobrenatural: só precisa ser algo importante.
Buscando a importância, então, vou dedicando parte do meu tempo à tarefa de me tornar eterno, por uma causa nobre, antes que tudo se perca pelo caminho.
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