sábado, 3 de maio de 2014

Estar Certo

"- Como você sabe que está certo toda hora? E se você estiver errado sobre o julgamento que faz das pessoas?
- Lembra do tal do Skinner?
- Que Skinner?
- O cara do rato. Tentando entender o aprendizado, ele botou um rato numa gaiola, com dois botões. Um botão trazia comida, o outro dava um choque no rato. Para todos os efeitos, havia o botão certo, e o botão errado. Depois de um tempo, o rato só apertava o botão da comida, não porque a comida era boa - era só queijo - mas porque o choque doía. Comigo é a mesma coisa, sempre que eu estive errado sobre alguém, doeu. Sempre que eu me enganava, eu era imediatamente punido. Após todos esses anos, eu sei que estou certo, apenas por não estar errado. Apenas por não doer."

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

De: Rafael, Para: William Lourenço

"O momento em que você percebe que é a única pessoa capaz de te ajudar é o momento em que sua fé na humanidade termina. Você deixa de precisar dela."

In: A Barca.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A Fé Cega

Se eu fumasse, aquele seria o momento de acender um cigarro. Do lado de fora da porta, olhando de longe o Estádio Independência, nenhuma nuvem no céu.
Nos últimos meses tenho feito coisas que ninguém esperava. Praticamente "larguei" meu mestrado na UFV (ainda terminando), saí de Viçosa, não vou à minha cidade natal há alguns meses, tenho vivido na mais absoluta "procrastinação". Como Físico, eu sei que na natureza, quando um fenômeno acontece, ele continua acontecendo a menos que aquilo que o originou deixe de existir. Naquele momento, do lado de fora da minha nova casa, a origem do meu fenômeno voltou a mim: você não pode ser aquilo que quer sendo igual a todo mundo. A minha escolha foi, na verdade, muito simples. A cada palestra que eu ia, a cada pesquisa que eu fazia, eu sabia que 1% da população humana saberia do que eu estava falando. Na Física, assim como na vida, quanto mais você sabe, mais sozinho você é.
Eu não nasci pra ser assim. Eu não quero usar minha inteligência pra ajudar 1%. Isso é besteira. Ao invés disso, resolvi trilhar um novo caminho, pra tentar ser alguém realmente importante: um caminho diferente.
Ainda não sei como a história vai terminar, ou se eu vou conseguir ser alguém, a partir das escolhas que fiz, ou dos riscos que assumi, mas eu já deixei de me preocupar com isso há muito tempo. A nova guerra e a nova paz estão apenas começando.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O Inverno

Fez frio quase todo dia.
Durante seis meses, as blusas saíram do armário. Durante seis meses, o Sol insistia em não aparecer. Nesse inverno eu perdi a noção dos dias. Não sabia se era segunda feira, se já era o fim do mês, se já eram três da tarde... Meu relógio biológico funcionava em um ciclo de trinta horas: vinte acordado, dez dormindo. Isso significava que, em algumas ocasiões, eu ia dormir às quatro da tarde, e acordava às seis da manhã.
Num desses dias eu acordei às seis, fiz café, e ninguém na minha casa tinha acordado. Ninguém existia na minha casa. Eu abri a porta da frente, sentei no banco da varanda, e entre as árvores do outro lado da rua, vi o Sol nascendo, devagar, como há muito tempo não fazia. E uma música começou a tocar na minha cabeça, uma que dizia "o exílio tomou conta da sua cabeça, novamente.". Com a caneca de café na mão, sentado num banco, no mês de agosto.
Eu sabia, naquele dia, que algo precisava mudar. Estar sozinho parou de me fazer bem, e começou a me fazer mal. A sorte dos tolos que me enviou para o exílio tinha acabado. Com um telefonema, com uma passagem de ônibus, com uma mochila nas costas, o exílio acabou. Só voltei lá pra buscar o resto das coisas.
A caneca suja de café ficou na pia.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Minhas 127 Horas (Parte Final)

Medo. Eu recebi a última lição sobre medo naquela tarde. 126 horas de rosto inchado, preso em isolamento do mundo. A vizinha tinha sofrido um derrame cerebral, e nós dois estavamos naquele quarto por motivos diferentes, mas não totalmente diferentes. Ela não podia sair de qualquer jeito, e eu não tinha que trabalhar por causa do inchaço. Não havia nada que eu precisasse fazer em casa, então decidi ficar ali, ao lado daquela cama, por mais um tempo.
"Ela leu seu blog, sabia?", a filha me disse. Não vou entrar em detalhes de como ela achou esse espaço, só digo que tem algo a ver com A Síndrome do Gênio. O mais interessante foi saber que ela era uma psicóloga. Alguém que consertou a mente de tanta gente, agora foi traída pela sua própria.
A próxima hora de lucidez começou com ela me dizendo que eu tenho tanto medo. Eu não sei, mas talvez ela tenha razão. Eu já perdi tanta coisa que agora eu tenho medo, e até aquele momento, eu não tinha certeza de que. Acho que no fim da vida a gente vê tudo mais claro, mesmo quando não se sabe de tudo, mesmo quando se tem Alzheimer.
Depois que a mulher da minha vida se casou com outro cara, eu vivia com medo de nunca mais encontrar alguém como ela. Naquela tarde, eu descobri que não era esse o meu verdadeiro medo. O meu medo era de encontrar, e não estar pronto. Mas, 127 horas depois do meu vigésimo sexto aniversário, eu aprendi o que era necessário pra estar pronto, pra tentar esquecer o medo. 127 horas depois, passei a mão pelo meu rosto e percebi que o inchaço tinha finalmente desaparecido.
Ali, enquanto os enfermeiros a preparavam para a volta ao hospital, e visto que nenhum deles me perguntou sobre o meu rosto, o quasimodo recebeu uma redenção final.
"O mundo te criou pra ser assim, distante, então não tenha medo."
Aquelas foram as últimas palavras, as que ficaram. Aquela voz se calou pra sempre, três horas depois. Mais uma alma se juntava ao meu bom amigo Weaver, e me obrigava a viver por ela. Já aprendi a me despedir das pessoas.
E acho que não tenho mais medo.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Minhas 127 Horas (Parte 2)

Parte 1 aqui.
Lá estava eu. Preso em casa, com o rosto inchado. Recomendações do dentista.
Quando se está enclausurado em algum lugar, muitas vezes é a nossa chance de conhecê-lo melhor. Já me ensinaram uma vez que você nunca conhece um lugar totalmente. Sempre há uma mancha no chão, um arranhão na geladeira, alguma coisa que você não sabe de onde veio. E assim eu perambulei pela casa onde morava há seis anos, perdido.
Era fim de tarde, na quarta-feira, a primeira vez que saí na varanda, com o rosto ainda inchado. Um pouco abaixo na rua, a filha da minha vizinha varria a calçada. A mulher de uns trinta e poucos me olhou por uns segundos, acenou, e eu evitei virar o rosto pra não assustá-la. Ela provavelmente ficaria preocupada, me perguntaria o que tinha acontecido, e eu teria que explicar pra ela o que já tinha explicado para o dentista. Eu achava melhor que fosse assim. As coisas que eu digo e que eu faço devem sempre devem ter mais importância do que aquilo com que eu me pareço.
O rapaz, que havia feito seus vinte e seis anos há apenas alguns dias, queria voltar ao mundo, queria experimentar a vida. O quasimodo, sentado na varanda, queria viajar pelas praças de Paris.
Nesse momento uma vassoura vai ao chão, e a moça que antes varria a rua entra correndo na casa.
Nesse momento o quasimodo esqueceu de seu pequeno defeito, e como nunca tinha acontecido antes, se preocupava com o que tinha acontecido.
Ele deixa o conforto de sua varanda e entra na casa ao lado pela primeira vez.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A Barca



Estou sumido, eu sei. Trataremos disso depois. Enquanto isso, segue um trechinho de "A Barca", meu não-tão-novo projeto. Aproveitem:

"De volta ao seu apartamento, Layla começa a fazer as malas. Hora de deixar o vestido azul de lado e usar algo que realmente achava confortável: camisa de malha, um casaco leve, calças jeans e tênis. Enquanto o elevador cobre os cinco andares, de volta ao térreo, Layla tentava novamente se localizar: estava viajando para São Paulo, para uma base da FAB, porque um rapaz que não via há muito tempo precisava da sua ajuda.
Ela olha de relance o chuveiro, talvez tomasse um banho quando chegasse lá. Agora não havia tempo. Mochila nos ombros, porta afora, e de volta aos homens que a esperavam na calçada, do lado de fora.
William abre a porta do carro para Layla, que encontra seu conforto no banco de trás, e ele se senta ao lado dela. O motorista, militar, segue a caminho do aeroporto de Confins.
– Enquanto a gente te esperava, um amigo seu passou em frente ao seu apartamento e reconheceu a gente, da festa de ontem. Um tal de Henrique. Perguntou por você.
– E o que você disse?
– Que você ia viajar por uns dias. Legal você ter um amigo gay.
– Ele não é gay.
– Ah, fala sério.
– É sério, a gente conversou na festa ontem...
– Quem apresentou vocês?
– O tio dele. – e depois de pensar um pouco, – Ah, entendi...
– Não se preocupe, eu só deduzi por causa do puddle com o qual ele estava passeando. Ele sabia o nome do cachorro.
O oficial havia percebido, àquela altura, que William Lourenço não era uma pessoa normal. Diante da liberdade que o rapaz apresentava, resolve afrouxar um pouco a sua farda e ter uma conversa menos formal com seus passageiros:
– Já reparou que quase toda mulher tem um amigo homossexual?
– Claro. É o melhor tipo de amigo pra uma mulher. Quer dizer, considere as outras opções: com um amigo hetero, ela nunca sabe quando ele vai estragar tudo dizendo que a ama, ou a namorada histérica dele vai começar a relacionar o tempo que eles passam juntos com o fato dela ser um animal de fazenda. Com amiga mulher, ou a amiga é mais bonita, onde o problema é óbvio, ou é mais feia, onde o risco de vê-la reclamar da vida e fazer beicinho é grande, sem contar o fato de que a amizade feminina é competitiva por natureza. Gays não têm esse problema, eles pensam como uma mulher, eles entendem de moda, e na balada eles podem até querer o mesmo que a menina, mas não há a competição direta. Ela quer heteros, ele, gays. O mundo deles é mais simples que o nosso.
Layla apenas sorri, desviando o olhar para o mundo lá fora, e se lembrando de que essa era a magia de William Lourenço, o rapaz capaz de analisar o mundo ao seu redor.
Alguns minutos depois, sob uma brisa leve, eles pegam o avião para São Paulo."