Sem querer soar muito cruel, há duas semanas atrás eu li uma postagem no blog do fantástico Julien Smith com o título The Complete Guide to Not Giving a Fuck (O guia completo para não dar a mínima), e eu aprendi algumas coisas, e desenvolvi algumas idéias próprias.
Uma coisa que eu aprendi é que, de fato, 99% das pessoas que você vê não dão a mínima para a sua existência e isso, ao contrário do que possa parecer, é uma coisa boa. O que eu tirei disso é que eu posso me contentar sumariamente em ser desnecessário.
E, com essa idéia poderosamente terrível na cabeça, eu me pus a falar sozinho coisas do tipo "Quer saber, eu já estou bem grandinho pra me apegar a isso, isso e aquilo." E a lama do pântano em que eu tenho andado por tantos anos foi aos poucos deixando meu corpo - de cara limpa, fui me secar ao sol. Ninguém realmente liga para as coisas que você faz, ou deixa de fazer.
Tenho um livro sendo publicado, outro pra escrever e um mestrado a terminar. Isso é tudo que eu preciso agora.
Link para a famigerada postagem:
http://inoveryourhead.net/the-complete-guide-to-not-giving-a-fuck/
Há coisas que eu penso. Há coisas que me dizem, e há coisas que eu vejo. Tudo isso não é nada além das variáveis da equação que me define como ser humano. Que tenta me explicar como alguém, como se isso fosse possível.
sábado, 15 de setembro de 2012
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Hibernação
Dia seis desse mês fizeram 5 anos desde a morte do Weaver. Normalmente, no aniversário da morte dele, eu tiro o dia pra pensar no que eu fiz até agora, se tenho vivido dentro das espectativas dele, ou feito justiça à sua memória. Ele sempre me dizia que era minha responsabilidade viver por nós dois, e que a minha vida era a que ele queria ter, era a que ele teria.
Passei quase um mês em hibernação - falando pouco, longe de tudo, aproveitando meu tempo livre pra não escrever nada, não desenhar nada, não fazer nada. Acordava sempre meio-dia, e ia dormir às 4 da manhã, como nos velhos tempos.
Em um desses dias, sem fazer nada, fui à Biblioteca da UFV, aqui em Vice City, pra ler qualquer coisa antiga, sei lá, buscar inspiração no trabalho de gigantes. E com o livro do Rubem Alves, Filosofia da Ciência, debaixo do braço, fui me acomodar em uma das mesas da sala de estudos.
E eu vi, então, aquela moça tirando o meu amado "Terra dos Homens" do Exupéry da bolsa, e fiquei pensando se não era disso que eu estava precisando: alguém para conversar sobre as coisas, alguém que me entendesse completamente, alguém que gostasse, de fato, das mesmas coisas que eu. Mas, então, lembrei de uma limitação da qual já havia sido avisado: "Se você estivesse com alguém agora, esqueceria essa história de escrever livro, pararia de passar as noites acordado, escrevendo as coisas, e começaria a viver durante o dia, como todas as pessoas normais. Se estivesse com alguém agora, jamais estaria fazendo aquilo que está fazendo nesse momento.". Eu me levantei e fui andando de volta ao Departamento de Física, para longe de onde a mulher perfeita estava sentada.
O objetivo de todo mundo é a felicidade, certo? Errado! Se eu me enganar em uma busca cega pela felicidade, eu perco aquilo que, no fundo no fundo, me faz uma pessoa melhor. Eu tenho que criar um mundo onde uma amiga possa criar seus filhos, e isso, de maneira estranha, me aproxima das pessoas.
É isso o que eu digo pra mim mesmo, mesmo que eu não esteja enganando a mais ninguém. Todos sabem que a verdade é que eu estou me afastando, deixando tudo pra trás.
domingo, 8 de julho de 2012
Ausência
Os ventos frios, dessa vez, chegaram de verdade à Vice City.
Enquanto fazia a última prova do período (sim, ainda as faço), um pôr-do-sol laranja me fez lembrar de pegar mais uma blusa.
E esse foi um Domingo como nos velhos tempos. Vinte e quatro horas sem ver um rosto amigo, passeando entre as multidões da Semana do Fazendeiro, no meio da baderna. Me lembrei de o quanto eu gostava desse tipo de coisa: absolutamente ninguém no planeta sabe do seu paradeiro, e confiando na velocidade com que más notícias se espalham, você pode continuar assim.
Na terça-feira da mesma semana, ano passado, eu me lembro de estar com a Leila andando nas barraquinhas, comendo um churros de doce de leite e me lambuzando todo, enquanto discutíamos um dos meus maiores defeitos: meu pavor de monte de gente. Dificilmente eu me submetia a esse tipo de situação, só em ocasiões especiais; e quem não sabia desse meu problema, nem notava a diferença. Para eles, eu estava fazendo algo normal, sem problemas, mas aquela moça percebia o quanto eu estava fora da minha zona de conforto, e essa semana me serviu, de certa forma, como maneira de lidar com a ausência dela. Foi, pra dizer a verdade, a primeira vez que eu notei essa ausência. No final das contas, só quem percebe meus sacrifícios os valoriza. Talvez eu não vá navegar em meio às pessoas, nunca mais. Pra mim vai ser fácil fugir de todos os motivos pra isso, de agora em diante.
Mas eu sei lá. Talvez eu esteja querendo demais algo que eu não preciso.
Enquanto fazia a última prova do período (sim, ainda as faço), um pôr-do-sol laranja me fez lembrar de pegar mais uma blusa.
E esse foi um Domingo como nos velhos tempos. Vinte e quatro horas sem ver um rosto amigo, passeando entre as multidões da Semana do Fazendeiro, no meio da baderna. Me lembrei de o quanto eu gostava desse tipo de coisa: absolutamente ninguém no planeta sabe do seu paradeiro, e confiando na velocidade com que más notícias se espalham, você pode continuar assim.
Na terça-feira da mesma semana, ano passado, eu me lembro de estar com a Leila andando nas barraquinhas, comendo um churros de doce de leite e me lambuzando todo, enquanto discutíamos um dos meus maiores defeitos: meu pavor de monte de gente. Dificilmente eu me submetia a esse tipo de situação, só em ocasiões especiais; e quem não sabia desse meu problema, nem notava a diferença. Para eles, eu estava fazendo algo normal, sem problemas, mas aquela moça percebia o quanto eu estava fora da minha zona de conforto, e essa semana me serviu, de certa forma, como maneira de lidar com a ausência dela. Foi, pra dizer a verdade, a primeira vez que eu notei essa ausência. No final das contas, só quem percebe meus sacrifícios os valoriza. Talvez eu não vá navegar em meio às pessoas, nunca mais. Pra mim vai ser fácil fugir de todos os motivos pra isso, de agora em diante.
Mas eu sei lá. Talvez eu esteja querendo demais algo que eu não preciso.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
A Arte de Lidar com a Partida
Há pouco tempo a avó de minhas primas se foi. Fiquei sabendo, na verdade, alguns dias depois.
Eu aposto que todo mundo conhece a sensação de impotência de ter que consolar alguém, quando não há maneira de se resolver o problema que se começou tudo. Sempre que eu sentia essa sensação, há tempos, eu me lembrava do Weaver - aquele moleque de quinze anos que me fez pensar em coisas que nunca tinha pensado antes. E ele, como não podia deixar de ser, me fez pensar na morte, afinal, ele mesmo sabia o que estava por vir.
O que ele me disse foi o seguinte: "Você ficaria triste por alguém que se aposentou e foi morar no Havaí?". Tudo o que você perde quando alguém se vai é a presença. Se você pensa por alguns instantes e põe tudo na balança, o importante fica aqui com você: as lembranças, as lições ensinadas pela vida vivida juntos.
Enfim, alguma coisa me disse, às sete da manhã, que eu tinha que telefonar pra elas. Mas daí eu pensei: o que eu posso dizer? Diria que sentia muito? Não seria verdade, não quando você é do tipo de pessoa que não acredita em luto, e que prefere acreditar que quem se foi, é porque está melhor assim. Diria que estarei disponível para o que elas precisarem? Também seria mentira. Eu não estava lá dessa vez, e não estarei em muitas outras no futuro. De fato, cada vez mais. Diria que podem contar com a ajuda que eu puder dar? Elas já sabem disso.
Eu preferi o silêncio. Deixar as coisas passarem e a tristeza do luto recente se tranformar na alegria da verdade: ninguém morre enquanto você se lembra.
Minhas primas um dia vão se lembrar disso. Foi Weaver quem me ensinou, do jeito difícil. Do único jeito que se pode aprender.
Eu aposto que todo mundo conhece a sensação de impotência de ter que consolar alguém, quando não há maneira de se resolver o problema que se começou tudo. Sempre que eu sentia essa sensação, há tempos, eu me lembrava do Weaver - aquele moleque de quinze anos que me fez pensar em coisas que nunca tinha pensado antes. E ele, como não podia deixar de ser, me fez pensar na morte, afinal, ele mesmo sabia o que estava por vir.
O que ele me disse foi o seguinte: "Você ficaria triste por alguém que se aposentou e foi morar no Havaí?". Tudo o que você perde quando alguém se vai é a presença. Se você pensa por alguns instantes e põe tudo na balança, o importante fica aqui com você: as lembranças, as lições ensinadas pela vida vivida juntos.
Enfim, alguma coisa me disse, às sete da manhã, que eu tinha que telefonar pra elas. Mas daí eu pensei: o que eu posso dizer? Diria que sentia muito? Não seria verdade, não quando você é do tipo de pessoa que não acredita em luto, e que prefere acreditar que quem se foi, é porque está melhor assim. Diria que estarei disponível para o que elas precisarem? Também seria mentira. Eu não estava lá dessa vez, e não estarei em muitas outras no futuro. De fato, cada vez mais. Diria que podem contar com a ajuda que eu puder dar? Elas já sabem disso.
Eu preferi o silêncio. Deixar as coisas passarem e a tristeza do luto recente se tranformar na alegria da verdade: ninguém morre enquanto você se lembra.
Minhas primas um dia vão se lembrar disso. Foi Weaver quem me ensinou, do jeito difícil. Do único jeito que se pode aprender.
terça-feira, 19 de junho de 2012
A Ordem das Coisas
Estive conversando com uma prima minha, há alguns dias, sobre o quanto ir esquecendo determinadas pessoas torna-se um processo inteiramente natural. Não é por crueldade. Essas coisas acontecem quando, à medida que o tempo passa, o destino nos leva a seguir caminhos diferentes, seja pela distância geográfica ou mesmo pelo distanciamento de interesses que, em um tempo que já se vai, eram os mesmos.
Soube que quatro pessoas iriam se casar, mas não conheço um dos maridos. Fingi surpresa para duas delas, e as outras duas realmente me surpreenderam. A segunda noiva vivia me dizendo que um dia nós íamos decidir quem iria ter filhos e quem ia criar o mundo onde eles cresceriam. Ao que parece, para mim, coube a segunda tarefa.
E assim minha vida segue, algumas responsabilidades maiores, as responsabilidades menores de sempre, e o meio de ano me vem com uma nova esperança, uma nova conquista a celebrar: finalmente sou dono de "A Síndrome do Gênio". Meu livro será publicado logo, e corrigindo uma coisinha aqui e ali, vou dando às palavras mal escritas o toque da obra final.
Tê-lo escrito, mais do que qualquer coisa, foi fazer as pazes com alguns aspectos do meu passado, e me fez reviver momentos de que já nem me lembrava. Estou finalmente em paz com algumas decisões que tomei, e acho que isso seja a melhor coisa que já fiz por mim mesmo.
Meu caminho agora se distancia do que era, eu eu vou, aos poucos, esquecendo a pessoa que começou a escrever nesse blog. É um processo inteiramente natural.
Soube que quatro pessoas iriam se casar, mas não conheço um dos maridos. Fingi surpresa para duas delas, e as outras duas realmente me surpreenderam. A segunda noiva vivia me dizendo que um dia nós íamos decidir quem iria ter filhos e quem ia criar o mundo onde eles cresceriam. Ao que parece, para mim, coube a segunda tarefa.
E assim minha vida segue, algumas responsabilidades maiores, as responsabilidades menores de sempre, e o meio de ano me vem com uma nova esperança, uma nova conquista a celebrar: finalmente sou dono de "A Síndrome do Gênio". Meu livro será publicado logo, e corrigindo uma coisinha aqui e ali, vou dando às palavras mal escritas o toque da obra final.
Tê-lo escrito, mais do que qualquer coisa, foi fazer as pazes com alguns aspectos do meu passado, e me fez reviver momentos de que já nem me lembrava. Estou finalmente em paz com algumas decisões que tomei, e acho que isso seja a melhor coisa que já fiz por mim mesmo.
Meu caminho agora se distancia do que era, eu eu vou, aos poucos, esquecendo a pessoa que começou a escrever nesse blog. É um processo inteiramente natural.
sábado, 26 de maio de 2012
Eu posso mudar?
Não via minha mãe haviam seis meses. Não que eu seja uma pessoa ligada à família, ou ligada à qualquer coisa. As únicas coisas com as quais eu sempre estive envolvido, desde que me entendo por gente, são os cadernos - sejam eles de exercícios ou de desenho.
Isso me rendeu, até certo ponto da minha vida, bons frutos: notas acima da média, a capacidade de compartilhar meus projetos, de dar vida a eles através das imagens que eu desenhava, tudo sem o maior esforço. Consegui, no percurso, até mesmo me formar em Física, o que, exatamente como dizem as más línguas, não é nada fácil.
Mas eu não sou bom com a vida. Eu não sou bom em ser pego no meio das complicações das outras pessoas, não sou bom em lidar com o que elas sentem (inclusive eu), e minha disponibilidade para meus amigos tem sido cada vez menor. Aos poucos, vou dando ao mundo a liberdade que ele merece, e a meu ver isso sempre foi resultado da minha própria personalidade. Mas, discutindo isso com minha mãe, me veio a idéia de perguntar: "Eu posso mudar?"
Serei eu capaz de largar minha inteligência de lado, com tudo o que ela já construiu, e me tornar uma pessoa normal e sociável como todas as outras? Se eu coloco na balança e percebo todos as coisas que eu perdi pra ter o que eu tenho, será que valeu a pena? Qual o peso de ser uma negação com relacionamentos, e um ás com todo o resto?
"Você não consegue."
Foi a primeira vez que eu desejei, do fundo do coração, que Weaver não tivesse morrido.
Isso me rendeu, até certo ponto da minha vida, bons frutos: notas acima da média, a capacidade de compartilhar meus projetos, de dar vida a eles através das imagens que eu desenhava, tudo sem o maior esforço. Consegui, no percurso, até mesmo me formar em Física, o que, exatamente como dizem as más línguas, não é nada fácil.
Mas eu não sou bom com a vida. Eu não sou bom em ser pego no meio das complicações das outras pessoas, não sou bom em lidar com o que elas sentem (inclusive eu), e minha disponibilidade para meus amigos tem sido cada vez menor. Aos poucos, vou dando ao mundo a liberdade que ele merece, e a meu ver isso sempre foi resultado da minha própria personalidade. Mas, discutindo isso com minha mãe, me veio a idéia de perguntar: "Eu posso mudar?"
Serei eu capaz de largar minha inteligência de lado, com tudo o que ela já construiu, e me tornar uma pessoa normal e sociável como todas as outras? Se eu coloco na balança e percebo todos as coisas que eu perdi pra ter o que eu tenho, será que valeu a pena? Qual o peso de ser uma negação com relacionamentos, e um ás com todo o resto?
"Você não consegue."
Foi a primeira vez que eu desejei, do fundo do coração, que Weaver não tivesse morrido.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
L'Odisseia, Parte 2: Vigília
Continuando a narrativa dos acontecimentos da Ilíada, lá estava eu, no ônibus errado, mas a caminho de casa.
Penso eu que, às vezes, tudo o que você pode fazer para enfrentar um problema é não pensar muito nele, apenas deixar que por si só, a resposta apareça. Na maioria das vezes, não há nada mais que a gente possa fazer. Com esse pensamento eu estava ali sentado, com um problema.
Para que as pessoas que não conhecem o trecho, vou postar uma imagem aqui (Vice City é conhecida como Viçosa em alguns lugares):
Eu estava descendo, a caminho de Ubá, no ônibus errado, e já nem me lembrava disso. Já estava tomado por aquela velha sensação de retorno, de voltar aos amigos abandonados, de voltar da guerra.
Na altura de Visconde do Rio Branco, no entanto, eis o que se sucedeu: A caminho da rodoviária, o meu ônibus errado encontra o meu ônibus certo deixando a cidade. Numa rua de via dupla deveras estreita, os dois motoristas trocam dois minutos de conversa, atrapalhando o trânsito. Dois minutos a mais na Odisseia. Os dois se cruzam, e se vão. Me levanto da minha poltrona e vou ter com o motorista.
"Aquele era o meu ônibus, certo?"
Certo.
Aquele é o meu ônibus.
Uma vigília tinha se iniciado desde a minha partida. As rodoviárias de Vice City, Visconde do Rio Branco e Ubá, desde então, estavam inclinadas sobre minha poltrona como que sobre o leito de um doente. Um erro havia sido cometido, e a comunicação humana o haveria de reparar.
"O seu ônibus vai te esperar em Ubá. Acho que quinze minutos serão suficientes." Foi tudo o que eu ouvi do motorista, e foi feito.
O ônibus certo me esperou em Ubá, todos tinham sido avisados do meu pequeno engano. Já lá dentro, como se não bastasse toda a preocupação, toda a aventura que havia me guiado até lá, tudo o que o motorista ouviu do rapaz sentando na poltrona que deveria ser sua foi "...e você nem sentiu a minha falta."
O motor ligou, o ônibus certo saiu, e antes do almoço estava de volta à minha cidade natal, de volta aos amigos, no fim da Odisseia.
Penso eu que, às vezes, tudo o que você pode fazer para enfrentar um problema é não pensar muito nele, apenas deixar que por si só, a resposta apareça. Na maioria das vezes, não há nada mais que a gente possa fazer. Com esse pensamento eu estava ali sentado, com um problema.
Para que as pessoas que não conhecem o trecho, vou postar uma imagem aqui (Vice City é conhecida como Viçosa em alguns lugares):
Eu estava descendo, a caminho de Ubá, no ônibus errado, e já nem me lembrava disso. Já estava tomado por aquela velha sensação de retorno, de voltar aos amigos abandonados, de voltar da guerra.
Na altura de Visconde do Rio Branco, no entanto, eis o que se sucedeu: A caminho da rodoviária, o meu ônibus errado encontra o meu ônibus certo deixando a cidade. Numa rua de via dupla deveras estreita, os dois motoristas trocam dois minutos de conversa, atrapalhando o trânsito. Dois minutos a mais na Odisseia. Os dois se cruzam, e se vão. Me levanto da minha poltrona e vou ter com o motorista.
"Aquele era o meu ônibus, certo?"
Certo.
Aquele é o meu ônibus.
Uma vigília tinha se iniciado desde a minha partida. As rodoviárias de Vice City, Visconde do Rio Branco e Ubá, desde então, estavam inclinadas sobre minha poltrona como que sobre o leito de um doente. Um erro havia sido cometido, e a comunicação humana o haveria de reparar.
"O seu ônibus vai te esperar em Ubá. Acho que quinze minutos serão suficientes." Foi tudo o que eu ouvi do motorista, e foi feito.
O ônibus certo me esperou em Ubá, todos tinham sido avisados do meu pequeno engano. Já lá dentro, como se não bastasse toda a preocupação, toda a aventura que havia me guiado até lá, tudo o que o motorista ouviu do rapaz sentando na poltrona que deveria ser sua foi "...e você nem sentiu a minha falta."
O motor ligou, o ônibus certo saiu, e antes do almoço estava de volta à minha cidade natal, de volta aos amigos, no fim da Odisseia.
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