Há pouco tempo a avó de minhas primas se foi. Fiquei sabendo, na verdade, alguns dias depois.
Eu aposto que todo mundo conhece a sensação de impotência de ter que consolar alguém, quando não há maneira de se resolver o problema que se começou tudo. Sempre que eu sentia essa sensação, há tempos, eu me lembrava do Weaver - aquele moleque de quinze anos que me fez pensar em coisas que nunca tinha pensado antes. E ele, como não podia deixar de ser, me fez pensar na morte, afinal, ele mesmo sabia o que estava por vir.
O que ele me disse foi o seguinte: "Você ficaria triste por alguém que se aposentou e foi morar no Havaí?". Tudo o que você perde quando alguém se vai é a presença. Se você pensa por alguns instantes e põe tudo na balança, o importante fica aqui com você: as lembranças, as lições ensinadas pela vida vivida juntos.
Enfim, alguma coisa me disse, às sete da manhã, que eu tinha que telefonar pra elas. Mas daí eu pensei: o que eu posso dizer? Diria que sentia muito? Não seria verdade, não quando você é do tipo de pessoa que não acredita em luto, e que prefere acreditar que quem se foi, é porque está melhor assim. Diria que estarei disponível para o que elas precisarem? Também seria mentira. Eu não estava lá dessa vez, e não estarei em muitas outras no futuro. De fato, cada vez mais. Diria que podem contar com a ajuda que eu puder dar? Elas já sabem disso.
Eu preferi o silêncio. Deixar as coisas passarem e a tristeza do luto recente se tranformar na alegria da verdade: ninguém morre enquanto você se lembra.
Minhas primas um dia vão se lembrar disso. Foi Weaver quem me ensinou, do jeito difícil. Do único jeito que se pode aprender.
Há coisas que eu penso. Há coisas que me dizem, e há coisas que eu vejo. Tudo isso não é nada além das variáveis da equação que me define como ser humano. Que tenta me explicar como alguém, como se isso fosse possível.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
A Ordem das Coisas
Estive conversando com uma prima minha, há alguns dias, sobre o quanto ir esquecendo determinadas pessoas torna-se um processo inteiramente natural. Não é por crueldade. Essas coisas acontecem quando, à medida que o tempo passa, o destino nos leva a seguir caminhos diferentes, seja pela distância geográfica ou mesmo pelo distanciamento de interesses que, em um tempo que já se vai, eram os mesmos.
Soube que quatro pessoas iriam se casar, mas não conheço um dos maridos. Fingi surpresa para duas delas, e as outras duas realmente me surpreenderam. A segunda noiva vivia me dizendo que um dia nós íamos decidir quem iria ter filhos e quem ia criar o mundo onde eles cresceriam. Ao que parece, para mim, coube a segunda tarefa.
E assim minha vida segue, algumas responsabilidades maiores, as responsabilidades menores de sempre, e o meio de ano me vem com uma nova esperança, uma nova conquista a celebrar: finalmente sou dono de "A Síndrome do Gênio". Meu livro será publicado logo, e corrigindo uma coisinha aqui e ali, vou dando às palavras mal escritas o toque da obra final.
Tê-lo escrito, mais do que qualquer coisa, foi fazer as pazes com alguns aspectos do meu passado, e me fez reviver momentos de que já nem me lembrava. Estou finalmente em paz com algumas decisões que tomei, e acho que isso seja a melhor coisa que já fiz por mim mesmo.
Meu caminho agora se distancia do que era, eu eu vou, aos poucos, esquecendo a pessoa que começou a escrever nesse blog. É um processo inteiramente natural.
Soube que quatro pessoas iriam se casar, mas não conheço um dos maridos. Fingi surpresa para duas delas, e as outras duas realmente me surpreenderam. A segunda noiva vivia me dizendo que um dia nós íamos decidir quem iria ter filhos e quem ia criar o mundo onde eles cresceriam. Ao que parece, para mim, coube a segunda tarefa.
E assim minha vida segue, algumas responsabilidades maiores, as responsabilidades menores de sempre, e o meio de ano me vem com uma nova esperança, uma nova conquista a celebrar: finalmente sou dono de "A Síndrome do Gênio". Meu livro será publicado logo, e corrigindo uma coisinha aqui e ali, vou dando às palavras mal escritas o toque da obra final.
Tê-lo escrito, mais do que qualquer coisa, foi fazer as pazes com alguns aspectos do meu passado, e me fez reviver momentos de que já nem me lembrava. Estou finalmente em paz com algumas decisões que tomei, e acho que isso seja a melhor coisa que já fiz por mim mesmo.
Meu caminho agora se distancia do que era, eu eu vou, aos poucos, esquecendo a pessoa que começou a escrever nesse blog. É um processo inteiramente natural.
sábado, 26 de maio de 2012
Eu posso mudar?
Não via minha mãe haviam seis meses. Não que eu seja uma pessoa ligada à família, ou ligada à qualquer coisa. As únicas coisas com as quais eu sempre estive envolvido, desde que me entendo por gente, são os cadernos - sejam eles de exercícios ou de desenho.
Isso me rendeu, até certo ponto da minha vida, bons frutos: notas acima da média, a capacidade de compartilhar meus projetos, de dar vida a eles através das imagens que eu desenhava, tudo sem o maior esforço. Consegui, no percurso, até mesmo me formar em Física, o que, exatamente como dizem as más línguas, não é nada fácil.
Mas eu não sou bom com a vida. Eu não sou bom em ser pego no meio das complicações das outras pessoas, não sou bom em lidar com o que elas sentem (inclusive eu), e minha disponibilidade para meus amigos tem sido cada vez menor. Aos poucos, vou dando ao mundo a liberdade que ele merece, e a meu ver isso sempre foi resultado da minha própria personalidade. Mas, discutindo isso com minha mãe, me veio a idéia de perguntar: "Eu posso mudar?"
Serei eu capaz de largar minha inteligência de lado, com tudo o que ela já construiu, e me tornar uma pessoa normal e sociável como todas as outras? Se eu coloco na balança e percebo todos as coisas que eu perdi pra ter o que eu tenho, será que valeu a pena? Qual o peso de ser uma negação com relacionamentos, e um ás com todo o resto?
"Você não consegue."
Foi a primeira vez que eu desejei, do fundo do coração, que Weaver não tivesse morrido.
Isso me rendeu, até certo ponto da minha vida, bons frutos: notas acima da média, a capacidade de compartilhar meus projetos, de dar vida a eles através das imagens que eu desenhava, tudo sem o maior esforço. Consegui, no percurso, até mesmo me formar em Física, o que, exatamente como dizem as más línguas, não é nada fácil.
Mas eu não sou bom com a vida. Eu não sou bom em ser pego no meio das complicações das outras pessoas, não sou bom em lidar com o que elas sentem (inclusive eu), e minha disponibilidade para meus amigos tem sido cada vez menor. Aos poucos, vou dando ao mundo a liberdade que ele merece, e a meu ver isso sempre foi resultado da minha própria personalidade. Mas, discutindo isso com minha mãe, me veio a idéia de perguntar: "Eu posso mudar?"
Serei eu capaz de largar minha inteligência de lado, com tudo o que ela já construiu, e me tornar uma pessoa normal e sociável como todas as outras? Se eu coloco na balança e percebo todos as coisas que eu perdi pra ter o que eu tenho, será que valeu a pena? Qual o peso de ser uma negação com relacionamentos, e um ás com todo o resto?
"Você não consegue."
Foi a primeira vez que eu desejei, do fundo do coração, que Weaver não tivesse morrido.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
L'Odisseia, Parte 2: Vigília
Continuando a narrativa dos acontecimentos da Ilíada, lá estava eu, no ônibus errado, mas a caminho de casa.
Penso eu que, às vezes, tudo o que você pode fazer para enfrentar um problema é não pensar muito nele, apenas deixar que por si só, a resposta apareça. Na maioria das vezes, não há nada mais que a gente possa fazer. Com esse pensamento eu estava ali sentado, com um problema.
Para que as pessoas que não conhecem o trecho, vou postar uma imagem aqui (Vice City é conhecida como Viçosa em alguns lugares):
Eu estava descendo, a caminho de Ubá, no ônibus errado, e já nem me lembrava disso. Já estava tomado por aquela velha sensação de retorno, de voltar aos amigos abandonados, de voltar da guerra.
Na altura de Visconde do Rio Branco, no entanto, eis o que se sucedeu: A caminho da rodoviária, o meu ônibus errado encontra o meu ônibus certo deixando a cidade. Numa rua de via dupla deveras estreita, os dois motoristas trocam dois minutos de conversa, atrapalhando o trânsito. Dois minutos a mais na Odisseia. Os dois se cruzam, e se vão. Me levanto da minha poltrona e vou ter com o motorista.
"Aquele era o meu ônibus, certo?"
Certo.
Aquele é o meu ônibus.
Uma vigília tinha se iniciado desde a minha partida. As rodoviárias de Vice City, Visconde do Rio Branco e Ubá, desde então, estavam inclinadas sobre minha poltrona como que sobre o leito de um doente. Um erro havia sido cometido, e a comunicação humana o haveria de reparar.
"O seu ônibus vai te esperar em Ubá. Acho que quinze minutos serão suficientes." Foi tudo o que eu ouvi do motorista, e foi feito.
O ônibus certo me esperou em Ubá, todos tinham sido avisados do meu pequeno engano. Já lá dentro, como se não bastasse toda a preocupação, toda a aventura que havia me guiado até lá, tudo o que o motorista ouviu do rapaz sentando na poltrona que deveria ser sua foi "...e você nem sentiu a minha falta."
O motor ligou, o ônibus certo saiu, e antes do almoço estava de volta à minha cidade natal, de volta aos amigos, no fim da Odisseia.
Penso eu que, às vezes, tudo o que você pode fazer para enfrentar um problema é não pensar muito nele, apenas deixar que por si só, a resposta apareça. Na maioria das vezes, não há nada mais que a gente possa fazer. Com esse pensamento eu estava ali sentado, com um problema.
Para que as pessoas que não conhecem o trecho, vou postar uma imagem aqui (Vice City é conhecida como Viçosa em alguns lugares):
Eu estava descendo, a caminho de Ubá, no ônibus errado, e já nem me lembrava disso. Já estava tomado por aquela velha sensação de retorno, de voltar aos amigos abandonados, de voltar da guerra.
Na altura de Visconde do Rio Branco, no entanto, eis o que se sucedeu: A caminho da rodoviária, o meu ônibus errado encontra o meu ônibus certo deixando a cidade. Numa rua de via dupla deveras estreita, os dois motoristas trocam dois minutos de conversa, atrapalhando o trânsito. Dois minutos a mais na Odisseia. Os dois se cruzam, e se vão. Me levanto da minha poltrona e vou ter com o motorista.
"Aquele era o meu ônibus, certo?"
Certo.
Aquele é o meu ônibus.
Uma vigília tinha se iniciado desde a minha partida. As rodoviárias de Vice City, Visconde do Rio Branco e Ubá, desde então, estavam inclinadas sobre minha poltrona como que sobre o leito de um doente. Um erro havia sido cometido, e a comunicação humana o haveria de reparar.
"O seu ônibus vai te esperar em Ubá. Acho que quinze minutos serão suficientes." Foi tudo o que eu ouvi do motorista, e foi feito.
O ônibus certo me esperou em Ubá, todos tinham sido avisados do meu pequeno engano. Já lá dentro, como se não bastasse toda a preocupação, toda a aventura que havia me guiado até lá, tudo o que o motorista ouviu do rapaz sentando na poltrona que deveria ser sua foi "...e você nem sentiu a minha falta."
O motor ligou, o ônibus certo saiu, e antes do almoço estava de volta à minha cidade natal, de volta aos amigos, no fim da Odisseia.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
L'Odisseia, Parte 1: Ilíada
Há alguns dias eu contei da minha involuntária maneira de me afastar do mundo e tentar provar uma teoria: O fato de alguém achar que eu sou bom nos tempos de chuva, mas péssimo nos tempos de Sol. Enfim, depois de algum tempo, retornei à minha rotina normal, e essa rotina envolvia, entre outras coisas, ir visitar meu pai na minha cidade natal.
Mas os deuses do destino não pareciam querer que eu retornasse. Entre eu deixar minha amada Vice City e chegar ao meu destino final em Rio Pomba, eis que uma pequena odisseia se sucedeu.
Era sábado de manhã, e contra tudo e contra todos, eu acordei cedo. Na minha passagem, estava marcado: Linha Ponte Nova/ Juiz de Fora, 9:45hs. Esse horário era estranho pra mim, que costumava pegar o ônibus das 19:40, na sexta-feira. Mas era aniversário do meu pai, era uma ocasião importante para eu voltar à vida normal.
9:40h da manhã lá estava eu na rodoviária, junto com algumas centenas de pessoas, na confusão que só o Terminal Rodoviário de Vice City pode proporcionar. Dez minutos depois, 9:50, um ônibus chega: Linha Ponte Nova/Juiz de Fora. Era, para todos fins, o meu. Me aproximo do auxiliar e fico sabendo que não era o meu - aquele ônibus era o de 9:47, e o 9:45 ainda estava a caminho. Volto para o banco onde estava sentado. O 9:47 já passou e o meu 9:45 ainda não havia chegado.
Doze minutos depois, chega outro ônibus da linha Ponte Nova/ Juiz de Fora, dessa vez o 9:45. Não haveria problema, não haveria estorvo, e eu subo no ônibus e sento na minha poltrona, como tinha feito pela última vez, noventa dias antes. Porém, com o motor já ligado, o auxiliar do 9:45 pergunta, lá da frente, se alguém estava indo para Rio Pomba. Como se tratava do meu destino, eu levantei o braço, sozinho na multidão. Eu era o único. O auxiliar, então, se aproxima da minha poltrona e diz, como se não houvesse remédio, que o 9:45 não chegaria a Rio Pomba, mas pararia duas cidades antes, em Ubá. O ônibus que eu deveria ter pegado era o 9:47.
Como não houvesse remédio, também, eu iria naquele ônibus até Ubá, e de lá, trocaria a minha passagem por uma até Rio Pomba, às 13:30 da tarde. Eu ficaria três horas a mais na estrada, e o meu reencontro com a vida estaria fatalmente atrasado. A odisseia estava começando.
Mas os deuses do destino não pareciam querer que eu retornasse. Entre eu deixar minha amada Vice City e chegar ao meu destino final em Rio Pomba, eis que uma pequena odisseia se sucedeu.
Era sábado de manhã, e contra tudo e contra todos, eu acordei cedo. Na minha passagem, estava marcado: Linha Ponte Nova/ Juiz de Fora, 9:45hs. Esse horário era estranho pra mim, que costumava pegar o ônibus das 19:40, na sexta-feira. Mas era aniversário do meu pai, era uma ocasião importante para eu voltar à vida normal.
9:40h da manhã lá estava eu na rodoviária, junto com algumas centenas de pessoas, na confusão que só o Terminal Rodoviário de Vice City pode proporcionar. Dez minutos depois, 9:50, um ônibus chega: Linha Ponte Nova/Juiz de Fora. Era, para todos fins, o meu. Me aproximo do auxiliar e fico sabendo que não era o meu - aquele ônibus era o de 9:47, e o 9:45 ainda estava a caminho. Volto para o banco onde estava sentado. O 9:47 já passou e o meu 9:45 ainda não havia chegado.
Doze minutos depois, chega outro ônibus da linha Ponte Nova/ Juiz de Fora, dessa vez o 9:45. Não haveria problema, não haveria estorvo, e eu subo no ônibus e sento na minha poltrona, como tinha feito pela última vez, noventa dias antes. Porém, com o motor já ligado, o auxiliar do 9:45 pergunta, lá da frente, se alguém estava indo para Rio Pomba. Como se tratava do meu destino, eu levantei o braço, sozinho na multidão. Eu era o único. O auxiliar, então, se aproxima da minha poltrona e diz, como se não houvesse remédio, que o 9:45 não chegaria a Rio Pomba, mas pararia duas cidades antes, em Ubá. O ônibus que eu deveria ter pegado era o 9:47.
Como não houvesse remédio, também, eu iria naquele ônibus até Ubá, e de lá, trocaria a minha passagem por uma até Rio Pomba, às 13:30 da tarde. Eu ficaria três horas a mais na estrada, e o meu reencontro com a vida estaria fatalmente atrasado. A odisseia estava começando.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Noventa Dias no Espaço
Quando alguém consegue descrever sua vida em uma frase, talvez haja algo de errado. Ninguém se imagina tão limitado na sua existência, mas muitas vezes alguém que está do lado de fora realmente consegue ver as coisas de maneira mais clara.
"Você é um farol. Quando as coisas vão mal as pessoas gostam de contar com você, e você está sempre ao lado delas. Mas quando a escuridão se vai e o sol aparece, você nunca está lá."
Com essa meia verdade nas mãos, eu não sabia até onde ela alcançava. O caso é que, desde que eu tinha ouvido isso, até algumas semanas atrás, tudo o que eu podia fazer era pensar sobre o assunto. Foi quando me apareceu a oportunidade de testar: alguns compromissos, e um belo de um acidente com óleo quente, fizeram de Vice City um exílio digno dos velhos tempos. Além da uma dúzia de pessoas que convive comigo diariamente, ligadas a mim por laços profissionais, fiquei noventa dias sem ver mais ninguém. Não visitei Belo Horizonte, não visitei Rio Pomba. Noventa dias de Vice City.
Nesses noventa dias, meu aniversário passou, um dos meus backups falhou e está me fazendo redigitar as 112 páginas do livro (a partir do pdf), e eu cuidei da minha vida, e só dela. Por três meses, o farol havia se apagado.
Nesse interim eu me lembrava de que quanto mais escuras as nuvens, mais forte eu sou, e pra onde eu olhava eu via céu azul. A felicidade, por algum tempo, me irritou. Eu descobri que tenho direito de me sentir um completo inútil em tempos de paz, e aos poucos eu deixei de me importar com isso: fui encontrando o lado bom de não ter que ajudar ninguém. Não era preciso ajudar ninguém e, por mais terrível que possa parecer, não me sentia mal por isso. Por isso eu voltei. Voltei e encontrei minha meia dúzia de pessoas importantes, de volta a alguns lugares, telefonando para outros.
E eu ouvia do outro lado da linha uma moça falando de boas lembranças vividas comigo, no tempo em que dividíamos o mesmo teto com uma família quebrada.
E eu via uma irmã brava por eu ainda não conseguir conciliar todos os aspectos da minha vida: há pessoas importantes em cada um deles que merecem o devido crédito, e há aquelas que simplesmente fazem um excelente trabalho em me manter vivo.
E eu sentia numa guria em meus braços o ódio por ter sentido saudade; em mim só ficou o sorriso magro de alguém que descobriu a falha na teoria. Dessa vez ela não precisava de mim, ninguém precisava de mim, mas eu estava lá.
Estou aprendendo a iluminar durante o dia.
"Você é um farol. Quando as coisas vão mal as pessoas gostam de contar com você, e você está sempre ao lado delas. Mas quando a escuridão se vai e o sol aparece, você nunca está lá."
Com essa meia verdade nas mãos, eu não sabia até onde ela alcançava. O caso é que, desde que eu tinha ouvido isso, até algumas semanas atrás, tudo o que eu podia fazer era pensar sobre o assunto. Foi quando me apareceu a oportunidade de testar: alguns compromissos, e um belo de um acidente com óleo quente, fizeram de Vice City um exílio digno dos velhos tempos. Além da uma dúzia de pessoas que convive comigo diariamente, ligadas a mim por laços profissionais, fiquei noventa dias sem ver mais ninguém. Não visitei Belo Horizonte, não visitei Rio Pomba. Noventa dias de Vice City.
Nesses noventa dias, meu aniversário passou, um dos meus backups falhou e está me fazendo redigitar as 112 páginas do livro (a partir do pdf), e eu cuidei da minha vida, e só dela. Por três meses, o farol havia se apagado.
Nesse interim eu me lembrava de que quanto mais escuras as nuvens, mais forte eu sou, e pra onde eu olhava eu via céu azul. A felicidade, por algum tempo, me irritou. Eu descobri que tenho direito de me sentir um completo inútil em tempos de paz, e aos poucos eu deixei de me importar com isso: fui encontrando o lado bom de não ter que ajudar ninguém. Não era preciso ajudar ninguém e, por mais terrível que possa parecer, não me sentia mal por isso. Por isso eu voltei. Voltei e encontrei minha meia dúzia de pessoas importantes, de volta a alguns lugares, telefonando para outros.
E eu ouvia do outro lado da linha uma moça falando de boas lembranças vividas comigo, no tempo em que dividíamos o mesmo teto com uma família quebrada.
E eu via uma irmã brava por eu ainda não conseguir conciliar todos os aspectos da minha vida: há pessoas importantes em cada um deles que merecem o devido crédito, e há aquelas que simplesmente fazem um excelente trabalho em me manter vivo.
E eu sentia numa guria em meus braços o ódio por ter sentido saudade; em mim só ficou o sorriso magro de alguém que descobriu a falha na teoria. Dessa vez ela não precisava de mim, ninguém precisava de mim, mas eu estava lá.
Estou aprendendo a iluminar durante o dia.
segunda-feira, 26 de março de 2012
A minha Síndrome
Muitas pessoas (ou pelo menos algumas) têm notado a crescente falta de postagens esse ano. Grande parte disso se deve ao fato de eu estar gastando quase toda a minha criatividade na minha empreitada de terminar meu livro, "A Síndrome do Gênio". Dessa forma, decidi botar aqui um trecho dele, pra mostrar que eu não estou atoa, apenas colocando meus esforços em outra coisa, por enquanto. Aí vai:
"– Olha que casalzinho bonito... – diz Layla, com o cotovelo na mesa e a mão no queixo, olhando um menino e uma menina, com o uniform e da escola, voltando pra casa. – Tenho saudade dessa época de amor adolescente, sabe...
William olha pela janela, e vê o casal do qual Layla falava. Ainda com a boca cheia, sorri com os olhos. Depois de se desentalar com o café, resolve botar algum sal no soro caseiro de Layla:
– Eles não se amam... de onde você tirou isso?
– De onde eu tirei isso? De onde você tirou isso?
– Bom, pra começar, ele está abraçando o pescoço dela. – Layla olha novamente, e de fato ele estava. – Existem, em geral, quatro partes onde um cara pode abraçar uma mulher: pescoço, ombros, braço ou cintura. Cada um deles corresponde a uma atitude específica perante a pessoa que ele está abraçando.
Layla já estava apenas brincando de prestar atenção, mesmo assim William continua, agora gesticulando bastante:
– De baixo pra cima, cintura significa alguma chance de envolvimento, braço significa proteção, ombro significa igualdade, ou amizade, mas pescoço? – nessa parte ele faz questão de apontar para fora da lanchonete – Pescoço significa possessão. A coitada da menina ainda não deve ter percebido, mas é a forma mais desconfortável de se andar por aí com o namorado, perdendo apenas, por motivos óbvios, para o andar do mosquito.
– Andar do mosquito? – Layla agora resolve entrar na brincadeira, dado o tom de provocação de William nas últimas frases.
– Sabe, quando a menina anda na frente, e o cara vem abraçado por trás. Já tentou andar assim? É impossível.
A moça ri, percebendo que, de trás de William e longe do ângulo de visão dele, um casal tinha acabado de sair da escola usando o “andar do mosquito” que ele tinha acabado de descrever. Quando se apercebe disso, William olha pra trás e avista a cena. O riso de Layla dá trégua e se transforma em um sorriso simples e espontâneo. William se vira novamente.
– Você é incrível. – diz Layla, em meio a pequenos risos.
– Valeu. – responde William, tomando o último gole do café que ainda restava em sua xícara. Era hora de pegar a estrada novamente. Eles pagam a conta e voltam para o carro."
"– Olha que casalzinho bonito... – diz Layla, com o cotovelo na mesa e a mão no queixo, olhando um menino e uma menina, com o uniform e da escola, voltando pra casa. – Tenho saudade dessa época de amor adolescente, sabe...
William olha pela janela, e vê o casal do qual Layla falava. Ainda com a boca cheia, sorri com os olhos. Depois de se desentalar com o café, resolve botar algum sal no soro caseiro de Layla:
– Eles não se amam... de onde você tirou isso?
– De onde eu tirei isso? De onde você tirou isso?
– Bom, pra começar, ele está abraçando o pescoço dela. – Layla olha novamente, e de fato ele estava. – Existem, em geral, quatro partes onde um cara pode abraçar uma mulher: pescoço, ombros, braço ou cintura. Cada um deles corresponde a uma atitude específica perante a pessoa que ele está abraçando.
Layla já estava apenas brincando de prestar atenção, mesmo assim William continua, agora gesticulando bastante:
– De baixo pra cima, cintura significa alguma chance de envolvimento, braço significa proteção, ombro significa igualdade, ou amizade, mas pescoço? – nessa parte ele faz questão de apontar para fora da lanchonete – Pescoço significa possessão. A coitada da menina ainda não deve ter percebido, mas é a forma mais desconfortável de se andar por aí com o namorado, perdendo apenas, por motivos óbvios, para o andar do mosquito.
– Andar do mosquito? – Layla agora resolve entrar na brincadeira, dado o tom de provocação de William nas últimas frases.
– Sabe, quando a menina anda na frente, e o cara vem abraçado por trás. Já tentou andar assim? É impossível.
A moça ri, percebendo que, de trás de William e longe do ângulo de visão dele, um casal tinha acabado de sair da escola usando o “andar do mosquito” que ele tinha acabado de descrever. Quando se apercebe disso, William olha pra trás e avista a cena. O riso de Layla dá trégua e se transforma em um sorriso simples e espontâneo. William se vira novamente.
– Você é incrível. – diz Layla, em meio a pequenos risos.
– Valeu. – responde William, tomando o último gole do café que ainda restava em sua xícara. Era hora de pegar a estrada novamente. Eles pagam a conta e voltam para o carro."
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