Eram umas dez da manhã, e lá vou eu, saindo da escola onde acompanho as aulas, como estagiário. Como nosso supervisor gostava de dizer, nossa presença mudava um pouco a rotina da escola. Eu sempre imaginei que teríamos uma influência positiva nos alunos, e me esforço para que isso aconteça.
Nesse dia eu não passei em casa, como sempre faço antes de ir pra UFV. Fui direto, mas antes tive que passar numa copiadora pra pegar mais uma lista de exercícios. É aí que começa a minha história. Quatro páginas impressas depois, vem a pergunta "Quer que embrulhe num plástico?". Normalmente eu não faço isso, mas dessa vez, na última hora, "Pode sim.". Com as folhas embrulhadas, continuo o caminho, e, passando perto de um lava-jato, espirra água em todo o plástico que envolvia as cópias. Eu e as folhas estávamos intactos.
Moral da história: Ainda bem que eu peguei a porcaria de um embrulho de plástico na copiadora. Assim, enquanto o plástico secava pelo Sol forte, e pelo tempo seco daquele dia, eu ía pensando comigo. Alguém há de achar que existe algo sobrenatural sobre muitas coincidencias, e que o bem acontece com as pessoas que praticam o bem. Mas, ao longo da minha vida, tenho recebido algumas evidências do contrário. Enfim, você se lembra de, em algum momento, ter colhido algo que, no fundo, não plantou? O impulso de que precisamos varia muito de pessoa pra pessoa, mas no fim é isso: a gente só pode ter aquilo que se permite. Não existe essa de merecimento, existe chance, atenção e consequência - busca e conquista.
Nesse ritmo eu continuava caminhando pela reta da UFV, o que em tempos remotos eu fazia de madrugada, e tudo aquilo que eu achava que merecia foi desaparecendo. Tudo o que eu esperei, até hoje, não aconteceu. Tudo aquilo o que sonhei, ainda não se tornou realidade, pois ainda não lutei por isso.
"Ela se foi, e disse que eu não luto por aquilo que eu quero". Acho que finalmente entendi; o sermão valeu à pena. Desaparecidos ainda continuam desaparecidos...
Há coisas que eu penso. Há coisas que me dizem, e há coisas que eu vejo. Tudo isso não é nada além das variáveis da equação que me define como ser humano. Que tenta me explicar como alguém, como se isso fosse possível.
sábado, 18 de setembro de 2010
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Ao Inesperado
Eu parei esses dias pra pensar em muita coisa. A maioria delas não tem nada a ver com meu momento atual. Decidi, pela primeira vez, pensar no futuro. Vou dizer a impressão que tive.
É como você entrar no supermercado, com uma lista de compras, sem saber quanto as coisas vão custar, e com pouco dinheiro. Já lá dentro, então, você ainda assim sai pegando tudo, sai correndo atrás de tudo de uma vez, e não se preocupa se o seu dinheiro é suficiente ou não. De repente, na fila do caixa, você olha a sua carteira.
Ontem eu fui olhar minha carteira, cheio de coisas na mão, e sem ter como pagar por todas elas. Nesse momento é que vem a pior parte: escolher o que vai devolver para a prateleira, escolher aquilo do qual se privar e pensar naquilo que não vale à pena, aquilo cujo preço é muito alto.
Essa semana estou caminhando de volta às prateleiras, pra devolver algumas coisas, principalmente aquelas que, embora eu queira, vão contra o que eu acredito.
O consolo que isso me trás é saber que, por mais que não quizesse deixar certas coisas pra trás, ninguém pode ficar no supermercado pra sempre. No lado de fora, tudo aquilo que lutamos pra conseguir, tudo aquilo que satisfaz nosso merecimento, se torna nosso. E o nosso dinheiro é a nossa vontade de fazer as coisas, nossa capacidade de nos envolvermos em um objetivo e seguí-lo, sempre por um preço justo; sempre lembrando que não se deve ir contra aquilo que acredita, ainda que seja para ir atrás de algo que deseja. Mas alguns preços caem, e seu desejo ainda pode ser recompensado.
Sou de uma longa linhagem de sobreviventes, e dos amores que tive, e das coisas que estou botando de volta, tudo que tenho a dizer é que algumas mudanças nunca se concretizam. Vou voltar à fila com aquelas nas quais ainda tenho esperança.
Faço isso ouvindo um sermão por dia...
É como você entrar no supermercado, com uma lista de compras, sem saber quanto as coisas vão custar, e com pouco dinheiro. Já lá dentro, então, você ainda assim sai pegando tudo, sai correndo atrás de tudo de uma vez, e não se preocupa se o seu dinheiro é suficiente ou não. De repente, na fila do caixa, você olha a sua carteira.
Ontem eu fui olhar minha carteira, cheio de coisas na mão, e sem ter como pagar por todas elas. Nesse momento é que vem a pior parte: escolher o que vai devolver para a prateleira, escolher aquilo do qual se privar e pensar naquilo que não vale à pena, aquilo cujo preço é muito alto.
Essa semana estou caminhando de volta às prateleiras, pra devolver algumas coisas, principalmente aquelas que, embora eu queira, vão contra o que eu acredito.
O consolo que isso me trás é saber que, por mais que não quizesse deixar certas coisas pra trás, ninguém pode ficar no supermercado pra sempre. No lado de fora, tudo aquilo que lutamos pra conseguir, tudo aquilo que satisfaz nosso merecimento, se torna nosso. E o nosso dinheiro é a nossa vontade de fazer as coisas, nossa capacidade de nos envolvermos em um objetivo e seguí-lo, sempre por um preço justo; sempre lembrando que não se deve ir contra aquilo que acredita, ainda que seja para ir atrás de algo que deseja. Mas alguns preços caem, e seu desejo ainda pode ser recompensado.
Sou de uma longa linhagem de sobreviventes, e dos amores que tive, e das coisas que estou botando de volta, tudo que tenho a dizer é que algumas mudanças nunca se concretizam. Vou voltar à fila com aquelas nas quais ainda tenho esperança.
Faço isso ouvindo um sermão por dia...
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
O Campinho
Estive novamente na cidade onde eu cresci.
O frio que estava fazendo fez com que a maioria das pessoas ficasse em casa, no Domingo. E durante alguns instantes, eu passeei pelas ruas daquela cidade, e talvez não fosse pedir demais que o tempo voltasse alguns anos, e eu pudesse refazer certas coisas, ou rever certos acontecimentos que poderiam ser mudados. Ou não.
Mas o caso é que, sempre que você sai por aí, em algum momento você volta pra casa. Perto da minha casa tem um campinho de futebol. Cheguei com a bicicleta no portão de casa, e de lá só dava pra ver um dos gols, onde um menino de uns dez anos observava a partida. E me lembrava de quando era eu quem estava ali, naquele mesmo lugar, tantos anos atrás, esfolando meus joelhos por coisas tão momentâneas, e mesmo assim que me davam um prazer imenso. Daquele campinho tantas vezes a gente viu o sol se pôr, e continuava brincando até não dar mais pra ver a bola - às vezes até quinze minutos depois, quando ninguém via mais a bola.
E é isso o que está acontecendo agora, tal como naquele tempo. Eu estou esfolando meus joelhos. Eu percebi, olhando aqueles meninos, que eu não tinha mudado em nada, desde aquela época. Eu me machucava, e sabe-se lá quantas vezes eu troquei a pele da sola do pé, quando voltava pra casa. E quanta roupa suja minha mãe teve que lavar depois de um dia inteiro debaixo de chuva, quando a sujeira parecia se multiplicar. Eu era alguém que esfolava os joelhos, mas não parava pra chorar. Não me sentia, nem por um minuto, incapaz de continuar. Olhando aqueles meus pequenos passados, eu ía me convencendo de que ainda sou assim.
Estou esfolando meus joelhos, e é por uma boa causa.
O frio que estava fazendo fez com que a maioria das pessoas ficasse em casa, no Domingo. E durante alguns instantes, eu passeei pelas ruas daquela cidade, e talvez não fosse pedir demais que o tempo voltasse alguns anos, e eu pudesse refazer certas coisas, ou rever certos acontecimentos que poderiam ser mudados. Ou não.
Mas o caso é que, sempre que você sai por aí, em algum momento você volta pra casa. Perto da minha casa tem um campinho de futebol. Cheguei com a bicicleta no portão de casa, e de lá só dava pra ver um dos gols, onde um menino de uns dez anos observava a partida. E me lembrava de quando era eu quem estava ali, naquele mesmo lugar, tantos anos atrás, esfolando meus joelhos por coisas tão momentâneas, e mesmo assim que me davam um prazer imenso. Daquele campinho tantas vezes a gente viu o sol se pôr, e continuava brincando até não dar mais pra ver a bola - às vezes até quinze minutos depois, quando ninguém via mais a bola.
E é isso o que está acontecendo agora, tal como naquele tempo. Eu estou esfolando meus joelhos. Eu percebi, olhando aqueles meninos, que eu não tinha mudado em nada, desde aquela época. Eu me machucava, e sabe-se lá quantas vezes eu troquei a pele da sola do pé, quando voltava pra casa. E quanta roupa suja minha mãe teve que lavar depois de um dia inteiro debaixo de chuva, quando a sujeira parecia se multiplicar. Eu era alguém que esfolava os joelhos, mas não parava pra chorar. Não me sentia, nem por um minuto, incapaz de continuar. Olhando aqueles meus pequenos passados, eu ía me convencendo de que ainda sou assim.
Estou esfolando meus joelhos, e é por uma boa causa.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Esse Blog Me Faz Sorrir!
Queria agradecer a Aline Fernandes pela indicação para o "Este Blog Me Faz Sorrir" no blog dela (\o/ Ahora me toca a mi... ). Fiquei muito feliz. Agora, ao que interessa. Para postar o selo acima, tenho que cumprir certas regras.
Vou dizer nove coisas que, provavelmente, ninguém sabe sobre mim, principalmente os que me conhecem apenas pelas páginas deste blog. Quem me conhece pessoalmente talvez saibam de algumas, mas enfim, vamos nessa:
1. Tenho mania de ficar rasgando panfletos de propaganda ao meio. Quando chego nuns dezesseis pedaços, eu paro.
2. Além de fazer Física e escrever, também sou desenhista.
3. Mesmo no calor, só durmo de meia. Aliás, no frio só tiro a meia pra tomar banho.
4. Não sei mentir, só omitir. Se me fizerem a pergunta certa, já era.
5. Tomate machuca a minha boca.
6. Já desenhei um vestido de noiva.
7. Eu falo sozinho (o que se agrava de madrugada).
8. Nunca tomei ponto, mas já precisei umas cinco vezes.
9. Tenho muitas boas idéias no banheiro.
Agora, vou indicar 9 pessoas para contar, elas também, 9 coisas sobre elas:
1. Raquel Elias - Entre Lágrimas e Pensamentos...
2. Marco Antônio Amaral - Njord's Corner
3. Frodominator - Ensaios de um Hobbit do Futuro
4. Clau - câmbio-desligo !
5. Carlos Alexandre Monteiro - Tudo Está Rodando
6. Liv Brandão - Go To Heaven
7. Mizarela - descascar alho
8. Suzana Elvas - Breviário das Horas
9. Juliana Cunha - Já Matei Por Menos
terça-feira, 24 de agosto de 2010
A Revolta e a Reviravolta
A cidade estava enfumaçada, por causa da quantidade de carros. Alguns fogos de artifício também contribuíram um pouco. Nesse ambiente, lá vou eu para o centro da cidade encontrar uma amiga de longa data, que estava de passagem por Viçosa.
E sentados, na Pastelaria do Chinês, ela me dizia o quanto eu parecia adulto, e as coisas que eu tinha conseguido mudar, desde a última vez que tínhamos nos visto. Não é a primeira vez que eu tenho esse tipo de conversa. Enfim, ali ficamos por um tempo, e ela ia me contando as coisas que deixavam ela revoltada, no emprego que tinha arranjado. Gosto um pouco de ver as pessoas reclamando daquilo que as incomodam, porque isso as define, de certa forma. Aquela conversa me fez refletir mais fundo sobre o que me define. Se além daquilo em que acredito, o que me revolta também faz parte do que eu sou, o que será então?
Percebi que não me revolto com nada. No meio do trânsito que me levou até o centro, no meio da confusão da hora do rush de Viçosa (que garanto ser o inferno), não consegui achar nada particularmente revoltante. A única coisa que me revoltava, em toda a minha história, era a minha própria capacidade de complicar as coisas, em determinados momentos. Era a minha auto-defesa ligada no máximo, em momentos em que ela não era necessária.
Me revoltava saber que meu caso não era perdido, e que embora eu houvesse tentado de todas as maneiras seguir em frente, eu ainda não havia conseguido até aquele dia, até entrar na pastelaria e sentar naquela mesa. Essa sensação de inaptidão para esquecer das coisas me define, por ser o que me revolta. Mas não dizem que, quando não se pode vencer o inimigo, se deve unir-se a ele? As coisas que eu nunca disse, afinal, não vão se dizer sozinhas, ou me esperar pra sempre.
Ela seguiu caminho depois da visita, e eu saí desse "encontro às pressas" com vontade de andar, e olhando em volta comecei a analisar as pessoas novamente. Eu sou assim, não posso evitar... mas dessa vez eu ri de orelha a orelha.
E sentados, na Pastelaria do Chinês, ela me dizia o quanto eu parecia adulto, e as coisas que eu tinha conseguido mudar, desde a última vez que tínhamos nos visto. Não é a primeira vez que eu tenho esse tipo de conversa. Enfim, ali ficamos por um tempo, e ela ia me contando as coisas que deixavam ela revoltada, no emprego que tinha arranjado. Gosto um pouco de ver as pessoas reclamando daquilo que as incomodam, porque isso as define, de certa forma. Aquela conversa me fez refletir mais fundo sobre o que me define. Se além daquilo em que acredito, o que me revolta também faz parte do que eu sou, o que será então?
Percebi que não me revolto com nada. No meio do trânsito que me levou até o centro, no meio da confusão da hora do rush de Viçosa (que garanto ser o inferno), não consegui achar nada particularmente revoltante. A única coisa que me revoltava, em toda a minha história, era a minha própria capacidade de complicar as coisas, em determinados momentos. Era a minha auto-defesa ligada no máximo, em momentos em que ela não era necessária.
Me revoltava saber que meu caso não era perdido, e que embora eu houvesse tentado de todas as maneiras seguir em frente, eu ainda não havia conseguido até aquele dia, até entrar na pastelaria e sentar naquela mesa. Essa sensação de inaptidão para esquecer das coisas me define, por ser o que me revolta. Mas não dizem que, quando não se pode vencer o inimigo, se deve unir-se a ele? As coisas que eu nunca disse, afinal, não vão se dizer sozinhas, ou me esperar pra sempre.
Ela seguiu caminho depois da visita, e eu saí desse "encontro às pressas" com vontade de andar, e olhando em volta comecei a analisar as pessoas novamente. Eu sou assim, não posso evitar... mas dessa vez eu ri de orelha a orelha.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
As Crônicas do Desaparecimento: Sinceridade
Conheci uma moça que sumiu, há algum tempo atrás. Ela ainda não era muito boa nisso. Mesmo assim, ela pegou suas coisas e foi pra longe de seus amigos.
A vida, naquele tempo, era muito boa para ensinar coisas, e ela, então, aprendeu. Aprendeu, em grande parte, a ver as coisas que estão ao seu redor. Aprendeu a ver aquilo que enxergava desde pequena. E durante seu tempo de desaparecida, ela sempre recebia mensagens de saudades, sempre acompanhadas de lembretes de que havia, e sempre haveria, um lugar para onde voltar.
Mas o destino, no seu caso, fez dela uma amante do pedestal onde havia subido, para admirar a paisagem do mundo. E quanto mais ela subia, quanto mais do todo ela via, mais encantada ela ficou por aquela vida. Ela seria capaz de vivê-la para sempre, mas no fundo do seu coração ela sempre guardava aquelas mensagens, aqueles desejos de boas vindas que custavam a vir, aquela celebração de laços incorruptíveis pela distância. Ela viveu algum tempo de sua nobreza solitária, até se rendeu algumas vezes às mensagens, mas em nenhum momento ela mentiu para si mesma. Em nenhum momento sequer ela esteve onde não deveria estar, pagando cada centavo dos preços que cada lugar cobrava.
Hoje ela ainda está sumida, e vive no topo daquele pedestal. Ela vê muito mais quando olha pela janela, e de lá pode ver o lugar de onde saiu - só alguns pequenos borrões, de uma figura da qual antes conhecia cada detalhe. Essa figura faz com que ela se reconheça, mas não faz dela o que ela é. Ela agora se caracteriza por estar distante, e no verso de cada recado de saudade, aprendeu a escrever o motivo de estar longe, o motivo que pode levar todos nós a arriscarmos o esquecimento: ser um pouco mais, sempre.
A vida, naquele tempo, era muito boa para ensinar coisas, e ela, então, aprendeu. Aprendeu, em grande parte, a ver as coisas que estão ao seu redor. Aprendeu a ver aquilo que enxergava desde pequena. E durante seu tempo de desaparecida, ela sempre recebia mensagens de saudades, sempre acompanhadas de lembretes de que havia, e sempre haveria, um lugar para onde voltar.
Mas o destino, no seu caso, fez dela uma amante do pedestal onde havia subido, para admirar a paisagem do mundo. E quanto mais ela subia, quanto mais do todo ela via, mais encantada ela ficou por aquela vida. Ela seria capaz de vivê-la para sempre, mas no fundo do seu coração ela sempre guardava aquelas mensagens, aqueles desejos de boas vindas que custavam a vir, aquela celebração de laços incorruptíveis pela distância. Ela viveu algum tempo de sua nobreza solitária, até se rendeu algumas vezes às mensagens, mas em nenhum momento ela mentiu para si mesma. Em nenhum momento sequer ela esteve onde não deveria estar, pagando cada centavo dos preços que cada lugar cobrava.
Hoje ela ainda está sumida, e vive no topo daquele pedestal. Ela vê muito mais quando olha pela janela, e de lá pode ver o lugar de onde saiu - só alguns pequenos borrões, de uma figura da qual antes conhecia cada detalhe. Essa figura faz com que ela se reconheça, mas não faz dela o que ela é. Ela agora se caracteriza por estar distante, e no verso de cada recado de saudade, aprendeu a escrever o motivo de estar longe, o motivo que pode levar todos nós a arriscarmos o esquecimento: ser um pouco mais, sempre.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
As Crônicas do Desaparecimento: Razão
Depois de um tempo, resolvi sumir também. E muita gente sabe que eu sou especialista nisso.
Embora sempre houvesse um lugar para alguém em meu coração, eu havia adquirido a capacidade de tornar esse vazio algo sem significado. As ideias que surgiam à partir desse lugar comum e afastado do meu corpo não se transformavam em ações. A última coisa que eu havia feito, baseado em meus sentimentos, foi sumir. Sumir e deixar o tempo fazer o seu trabalho. Foi quando me perguntaram se eu realmente vivia do jeito que eu queria. Pra mim, naquele tempo, não era questão do que eu queria, era questão de sobrevivência. Se minha parte emocional não podia ter uma vida, então minha vida racional teria. Assim, eu resolvi sumir também.
Enquanto sumi, caminhei muitas vezes na chuva, outras no meio da rua, vazia pela madrugada. Às vezes encontrei pessoas na rua, e passava por elas, com meu segredo no coração. Sabia eu que elas jamais reconheceriam os segredos que esse mundo guarda, nem mesmo o meu, pequeno como era. Eu tinha sumido, e embora elas me enxergassem, elas não me viam.
O grande risco de sumir dessa maneira é que não se sabe, às vezes, a hora certa de voltar. Na grande maioria das vezes, só fazemos isso para que as pessoas sintam nossa falta, mas no fundo temos medo de que elas não sintam. O verdadeiro motivo das pessoas sumirem não é esse. Não é um narcisismo exacerbado, ou a falta de reconhecimento, ou menos ainda a vontade de ficar sozinho. Quem some, sendo verdadeiro consigo mesmo, faz isso por ser a única forma de nos livrarmos dos preconceitos, de nos ligarmos ao mundo e retomarmos nosso cordão umbilical perdido, de subirmos nos pedestais da vida e vermos o todo, perdendo, devagar, os detalhes dos relacionamentos superficiais. Quem some, some porque quer ver, de fora, de onde viemos e o que somos.
"Quanto mais te elevares, verás do todo uma parte cada vez maior, ao ponto que os pormenores se desvanecerão."
Pensando nisso podemos saber, com certeza, quando chega a hora de voltar.
Embora sempre houvesse um lugar para alguém em meu coração, eu havia adquirido a capacidade de tornar esse vazio algo sem significado. As ideias que surgiam à partir desse lugar comum e afastado do meu corpo não se transformavam em ações. A última coisa que eu havia feito, baseado em meus sentimentos, foi sumir. Sumir e deixar o tempo fazer o seu trabalho. Foi quando me perguntaram se eu realmente vivia do jeito que eu queria. Pra mim, naquele tempo, não era questão do que eu queria, era questão de sobrevivência. Se minha parte emocional não podia ter uma vida, então minha vida racional teria. Assim, eu resolvi sumir também.
Enquanto sumi, caminhei muitas vezes na chuva, outras no meio da rua, vazia pela madrugada. Às vezes encontrei pessoas na rua, e passava por elas, com meu segredo no coração. Sabia eu que elas jamais reconheceriam os segredos que esse mundo guarda, nem mesmo o meu, pequeno como era. Eu tinha sumido, e embora elas me enxergassem, elas não me viam.
O grande risco de sumir dessa maneira é que não se sabe, às vezes, a hora certa de voltar. Na grande maioria das vezes, só fazemos isso para que as pessoas sintam nossa falta, mas no fundo temos medo de que elas não sintam. O verdadeiro motivo das pessoas sumirem não é esse. Não é um narcisismo exacerbado, ou a falta de reconhecimento, ou menos ainda a vontade de ficar sozinho. Quem some, sendo verdadeiro consigo mesmo, faz isso por ser a única forma de nos livrarmos dos preconceitos, de nos ligarmos ao mundo e retomarmos nosso cordão umbilical perdido, de subirmos nos pedestais da vida e vermos o todo, perdendo, devagar, os detalhes dos relacionamentos superficiais. Quem some, some porque quer ver, de fora, de onde viemos e o que somos.
"Quanto mais te elevares, verás do todo uma parte cada vez maior, ao ponto que os pormenores se desvanecerão."
Pensando nisso podemos saber, com certeza, quando chega a hora de voltar.
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