quarta-feira, 8 de junho de 2011

Mirante

Minha mãe não gosta muito do outono. Segundo ela, o ar fica muito pesado, e até meio triste. Nesse mês de maio eu fui vê-la, depois de muito tempo, e novamente algumas coisas referentes ao "grande acontecimento" daqui a dois meses chegaram para me rondar. Mês de maio, dessa vez, eu não tirei férias tão grandes assim.
Depois de tanto tempo parado, não só com as atividades do Blogger, quanto de muitas outras, não pude deixar de temer esquecer algumas coisas. Me preocupei em esquecer como colocar, em algumas palavras, o que acontece (ou pode acontecer) comigo. E no vai e vém, principalmente nesse mês de maio, revisitei um lugar que a um tempo atrás significava muito pra mim (coisa que, aliás, tem me acontecido muito ultimamente), e na minha memória algo que estava perdido voltou, e tudo o que eu pude dizer, lá do alto, foi:
"Acho que tinha me esquecido disso."
Quando a sua mente te força a esquecer algo, pra não enlouquecer, e você segue em frente, o que te faz lembrar daquilo denovo, além dela mesma? E se lembrar que esqueceu, não é o mesmo que lembrar? Mas os tempos são outros, e aquilo que eu tinha na minha mente nunca afetou meu coração, de qualquer maneira. Com toda sinceridade, me lembrando de alguns anos atrás, e da face maravilhosa do destino que vi ali, e ali mesmo vi desaparecer, eu sorri; um sorriso honesto, que por muito tempo eu havia me negado, e a tantos anos sequer existiria.
Uma guerra começou em uma montanha, anos atrás, o sangue desceu na enxurrada, e hoje vi as árvores que nasceram no lugar.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A Avenida Purdue

Se você quizer entrar na UFV, pela cidade, existem três entradas: A reta, mais famosa, a entrada alternativa, que passa pelo outro lado da lagoa, e a Avenida Purdue. Essa última quase nunca é utilizada, apenas por aqueles cujo caminho fica realmente mais rápido, o que não são muitos nesse caso.
Na última quinta-feira fiquei em casa quase o dia inteiro, e tinha um compromisso na UFV. Como não queria que ninguém me convencesse a ficar lá, fui pela Avenida Purdue. É uma rua sem prédios, entre a mata e o jardim de Botânica. No horário em que eu passei lá, não havia nem uma alma viva, ninguém que precisasse chegar ao seu caminho mais rápido. E ficar sozinho assim, enquanto ando despropositalmente por um lugar que sempre existiu ao meu alcance, mas onde nunca tive motivo para passar, me lembrou de outras coisas que estavam ao meu alcance, naquele dia, e até hoje estão, e que eu não tenho, ou não preciso, ou esteja muito acomodado pra tentar.
De acordo com algumas pessoas que eu conheço, meu futuro está agora praticamente traçado, mas isso significa trilhar exatamente aquilo para o qual a minha seta aponta, sem me preocupar com o que está ao meu alcance ou não. Como esperar o que é seu se chocar com você, bater na sua cara, sem ter que esticar o braço para ter o que quer que seja? Eu quero me esforçar pra ter alguma coisa, além daquilo que virá por eu simplesmente existir e respirar. Quero ter uma aspiração, um objetivo que além de perfeitamente plausível, esteja ao meu alcance agora, e ninguém me diz que "é só esperar".
Estou procurando agora a minha via secundária, aquilo que vai surpreender muita gente, a minha Avenida Purdue.

P.S.: Maio, como os leitores mais antigos sabem, é meu mês de férias. Então até junho!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Pensando em Ovos

Um surto de inspiração. Foi isso o que aconteceu essa semana comigo. Escrevi quase duas páginas do meu "Paradoxo" (futuro livro) no mesmo dia, desenhei algumas paisagens, e resolvi uns dois problemas de Mecânica Quântica.
Quando umas coisas assim acontecem, dá vontade de ser assim todo dia. Pena que, ao contrário dos nossos desejos, esse surto de inspiração acaba e a gente volta a andar a passos de tartaruga. A gente para de produzir e começa a consumir produção, deixa de criar pra se aproveitar da criação dos outros. Assim, depois do surto, a minha vida seguiu como normalmente, e eu fiquei pensando no que eu poderia fazer pra ter outro daqueles, e principalmente SE eu poderia fazer alguma coisa quanto à isso. Então, liguei pra uma das pessoas que eu acabei treinando pra me ajudar em situações como essa: a única pessoa que consegue me analisar sem ser excessivamente sentimental.
Eis a conclusão a que chegamos: Não é o que acontece, mas como você encara o que acontece que realmente importa, que realmente te leva a querer tirar do nada algo que valha a pena. O que está aos seu redor, e principalmente as pessoas que você mantém ao seu redor tem tudo a ver com sua produtividade. Existem bilhões de pessoas no mundo com quem você nunca vai se relacionar, e muitas que você nunca vai sequer conhecer, mas só é preciso meia dúzia pra te inspirar, se você souber achar a meia dúzia certa.
E se você pensar bem, essa meia dúzia de pessoas se modifica, à medida que a gente cresce, e isso torna o processo de criação, ainda mais, um processo de descoberta. E foi voltando ao surto que eu encontrei a meia dúzia de que preciso.
Esse número, acho, tende a aumentar...

sábado, 2 de abril de 2011

Como a Gente Funciona

Há muito tempo eu não posto uma música. Pois é.



Gomez - How We Operate

Calm down, and get straight.
Acalme-se, e se ajeite.
It's not our eyes, it's how we operate.
não são nossos olhos, é como a gente funciona.
You're true, you are.
Você é verdadeira, você é.
I'd apologize but it won't go very far.
Eu me desculparia, mas isso não vai longe.

Please come here, come right on over.
Por favor, venha aqui, vem direto pra cá.
And when we collide we'll see what gets left over.
E quando colidirmos, veremos o que vai sobrar.
A little joy, a little sorrow,
Alguma alegria, alguma tristeza,
And a little pride so we won't have to borrow.
E algum orgulho, pra gente não pedir emprestado.
Wherever you lead, I'll follow.
Onde você levar, eu sigo.

Turn me inside out and upside down
Me vire do avesso e de cabeça pra baixo
And try to see things my way.
E tente ver as coisas do meu jeito.
Turn a new page, tear the old one out
Vire uma nova página, e rasgue a antiga
And I'll try to see things your way.
E eu vou tentar ver as coisas do seu jeito.

Please come here, please come on over.
Por favor, venha aqui, vem pra cá.
There is no line that you can't step right over.
Não há limite que não possa cruzar.
Without you, well, I'm left hollow,
Sem você, bem, eu fico vazio,
So can we decide to try a little joy tomorrow?
Então podemos tentar alguma alegria amanhã?
'Cos, baby, tonight I'll follow.
Porque essa noite eu vou seguir.

The way that we've been speaking now
Do jeito que a gente tem falado agora
I swear that we'd be friends, I swear.
Poderia jurar que eramos amigos, eu juro.
'Cos all these little deals go down with
Por que todos esses pequenos acordos caem
Little consequences, we share, we share.
com poucas consequencias. Nós as dividimos.

Turn me inside out and upside down
Me vire do avesso e de cabeça pra baixo
And try to see things my way.
E tente ver as coisas do meu jeito.
Turn a new page, tear the old one out
Vire uma nova página, e rasgue a antiga
And I'll try to see things your way.
E eu vou tentar ver as coisas do seu jeito.
And I'm gonna love you anyway...
E eu vou te amar mesmo assim...

sábado, 19 de março de 2011

Trovão e Lua

"O céu já fica laranja às vezes."
Com essa frase uma pessoa me animou muito ontem, enquanto eu falava sobre adorar o outono. E embora a paisagem vá se modificando para a nostalgia dessa estação, quando olhei pela janela, senti cheiro de grama molhada. Tinha acabado de chover e já era tarde, e ao que tudo indicava, era hora de eu ir embora do Departamento de Física, se não quizesse pegar uma chuva "viçosense".
Não sei se já tinha comentado, mas aqui chove do nada. Provavelmente efeito das montanhas ao redor, ou do azar mesmo, mas 50% das vezes que você toma chuva aqui, nem percebe ela chegando. E naquele dia, com o céu nublado, eu saí de volta pra casa.
Braços cruzados. Um grande mestre meu dizia que apenas se deve preocupar em aquecer o tronco, que o resto do seu corpo se aquece sozinho. Eu não sei bem se é verdade, mas naquele instante eu cruzei os braços, pois estava no meio da reta, e começava a chover.
Eu olhava pra cima, e via as gotas chegando pouco a pouco, de dentro pra fora no círculo do meu olhar. Elas eram cada vez mais numerosas, e eu ligava cada vez menos pra elas. Quando eu era pequeno, gostava de entrar na chuva quando ela já estava forte, gostava de pegar o olho do furacão, mas o que me fez ignorar o fato de estar me molhando foi o "pouco-a-pouco". Não foi a essência daquela juventude perdida, mas o que aquela sensação fazia comigo, naquele dia. Eu cheguei ao fim da minha reta da UFV, passei pelas quatro pilastras, e tomava o rumo de casa. O filme que descia do céu agora estava sendo rebobinado, e a chuva parava de cair mais rápido do que tinha vindo.
Já a 100 metros de onde eu moro, uma luz estranha iluminava a rua, onde as luzes dos postes denovo não tinham suportado uma chuvinha. A grande auréola branca desenhada nas nuvens pela lua. Ali, naqueles 100 metros finais, parecia que alguém me tinha pregado uma peça, e que peça linda. Aquela chuva lavou as coisas que eu queria perder.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O 24º Outono

Eu nasci uns cinco dias antes do começo do outono de 1987, mas ainda assim me considero um outonense. Agora já faltam cinco dias para o começo de mais um outono, o 24º da minha vida, e alguém veio hoje e me disse que eu sou a pessoa mais bem humorada que esse alguém conhece. Bom, talvez as pessoas não me conheçam tão bem, mas isso não importa.
O que importa é que ontem, antes de hoje chegar, eu percebi grandes coisas acontecendo, fiquei feliz com quase todas elas, e quando chegou meia noite eu pensei que eu poderia morrer ali mesmo, e a paz se faria no mundo. Eu sempre tive certeza que, se fosse pelo bem da humanidade, 80% da população terrestre jamais dará uma contribuição que mereça ser notada. A grande maioria das pessoas só está aqui pra incomodar, mas nesse intervalo de 24 horas eu pude perceber aquilo que ainda existe pra se salvar. Eu vi as pessoas tristes do mundo.
Sim, porque aquela pessoa que você vê rindo o tempo todo tem a vida mais sem graça que se pode imaginar, sabe por que? Porque ela tem certeza que dali ela não vai a mais lugar nenhum. E assim eu vejo a felicidade, a felicidade da simplicidade, e por muito tempo eu pensei porque eu não era feliz assim. Acho que finalmente encontrei a resposta: porque eu ainda tenho a capacidade de me mover. Eu ainda posso fazer muito mais do que faço agora, e essa minha "falta de felicidade" serve pra eu me lembrar disso - serve pra não deixar que eu me acomode e siga em frente. Eu nunca vou ser feliz assim.
E ainda bem que eu soube de tudo isso, já que o 24º outono está pra começar. Nesse momento, no horizonte, uma antiga estrela se aproxima.

segunda-feira, 14 de março de 2011

No Começo e No Fim

Sempre tenho comentado a forma como aproveito as minhas viagens. Cada ônibus que eu pego é como uma música que eu canto pra mim mesmo, e dividir certos momentos com estranhos me deixa, de certa forma, mais à vontade do que com conhecidos.
A mudança, por si só, me proporciona pensamentos que muitas vezes eu cheguei a deixar de lado, uma vez que chego ao meu destino, mas nada disso me impede de começar tudo denovo, quando chega a hora de voltar. Acho que essa é a melhor definição de casa: é pra onde eu vou quando digo: "É hora de voltar...". Enfim, nesse vai e vem em que a minha vida tem se resumido nos últimos (quase) cinco anos, alguns pensamentos me vinham preferencialmente enquanto eu esperava o ônibus partir, ou quando via, no céu noturno, os primeiros reflexos das luzes da cidade - do meu destino. E são esses pensamentos que sempre permanecem, quando entre uma viagem e outra, eu encontro asilo na residência fixa, nos acontecimentos de cada dia.
Eu falo dos motivos, das razões às vezes obscuras a mim mesmo, de ir de um lado para o outro. Falo das coisas que me motivam a ir pra onde as quatro rodas me levam, e dos lugares onde nenhum veículo do mundo poderia me levar. Falo daquilo que me impele, que me chama em cada lugar onde, vez ou outra, me vejo chegando sem saber porque, sem pensar muito sobre isso. Falo das pessoas - de uma dúzia de pessoas que são importantes pra mim, das que estão ao meu alcance, das que eu ajudei tantas vezes quando ninguém mais podia. Eu falo daquilo que aprendi com todas elas, e da mais cruel e absoluta verdade: você jamais se tornará importante pra quem ajudar, principalmente quando se é o único que pode fazê-lo, mas para aquele que ajuda, uma marca e uma cicatriz são feitas, e elas duram eternamente: assim nasce a importância e o zelo.
Eu falo disso porque fiz coisas pra muita gente, durante toda a minha vida - coisas que apenas eu seria capaz de fazer, e isso não me fez importante, mas tornou muita gente importante pra mim. E nesse momento, já passados tantos anos, eu sei que não há uma só pessoa no meu planeta, nos pontos finais de nenhuma de minhas jornadas, no começo e no fim, que possa me retribuir por tudo aquilo. Esse é o preço que se paga por fazer pelas pessoas aquilo que elas não podem fazer sozinhas.
Esse é o preço que se paga por não poder pedir.