São as primeiras horas do dia 27, e o Sol ainda nem nasceu.
Provavelmente não haverá hora melhor de postar a última notícia do ano. Hoje eu percebi que o mundo é um lugar muito grande, e existem aproximadamente sete milhões de pessoas diferentes vivendo nele. Mas de tantas pessoas, acho que não vou poder mandar cartões de Feliz Ano Novo para nenhuma, afinal, ainda não acredito na importância da mudança de data.
O caso é que alguém me fez um pedido interessante. Um pedido tão interessante que eu considero válido atendê-lo durante um ano todo. Já que eu mesmo não sei como explicar, vou simplesmente transcrevê-lo, exatamente como me foi feito:
"Eu entendo como possivelmente está se sentindo, mas não aprovo.
Eu acredito que você não está se focando naquilo que realmente importa porque talvez esteja desolado pela coisa errada, e isso eu não posso permitir. Talvez você não esteja - como creio que acredite - no fundo do poço. Pessoas no fundo do poço normalmente não podem deixá-lo tão facilmente quanto você pode.
Os últimos seis meses devem ser esquecidos, e nesse caso eu quero que você saiba que pode contar comigo. Mas, o está pensando em fazer agora para deixar isso para trás e voltar a ser a pessoa que eu conheço? O que você vai fazer quando o passado do qual você tem fugido nos últimos três anos finalmente estiver aqui?
Sei que pode pensar em alguma coisa. E eu sei que você não deveria continuar se sentindo assim. Não é certo. Algumas pessoas são totalmente capazes de decidir o que podem fazer, de maneira a superar seus problemas, mas você sempre teve a escolha de fazer diferente: você os ignorou, e isso resultou na falha que você presenciou nos últimos meses.
O que eu proponho a você é parar de fugir da vida que pode ter. Aceite suas responsabilidades com você mesmo, com as pessoas em que confia, e comigo, se possível. Não ouse deixar que a derrota destrua seu espírito, e não me desaponte. Você ainda tem um maravilhoso mundo inteiramente novo à sua frente, e não será uma perda total se você apenas encará-lo com os devidos olhos.
Eu tenho que ir agora, e vou te deixar com seus pensamentos. Quando o próximo ano começar, leia isso denovo. Talvez você encontre nisso alguma coisa pelo qual lutar. E eu com certeza espero que você tenha uma história pra mim nessa hora. Eu nunca deixei de acreditar em você.
Até a próxima vez,"
Esse recado estava na minha caixa de email desde dezembro de 2008, e faz parte de uma coleção de coisas antigas que eu guardo na minha "pilha de ruínas". Tenho que admitir que não fez muito sentido pra 2009, e não adiantou muito. Mas agora eu li denovo - hoje, nessa madrugada - e pensei que seria melhor vivê-lo agora.
Não vou dizer quem escreveu, nem quando me mandou, porque seria quase que uma traição (risos). Mas acho que isso é o que faz de tudo válido. Se eu disesse que foi alguém com um tridente e um par de chifres, e que cheirava a enxofre, ainda assim levariam a sério? Melhor deixar como está.
Bom, pelo menos já sei como aguentar mais um ano, e novamente me recusando a celebrar a importância da data (como fiz ano passado), meu recado continua também o mesmo: "Que amanhã seja um dia melhor que o dia de hoje, sempre. Essa é a fórmula para seguir em frente, sonhar nossos sonhos, e não ligar para falsos fins. Temos tantos pequenos começos verdadeiros pela frente..."
Boas Festas.
Há coisas que eu penso. Há coisas que me dizem, e há coisas que eu vejo. Tudo isso não é nada além das variáveis da equação que me define como ser humano. Que tenta me explicar como alguém, como se isso fosse possível.
domingo, 27 de dezembro de 2009
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Se Cães Tivessem Sentimentos
Já me disseram uma vez de um grupo de soldados, que estava se preparando para a guerra.
Parte do treinamento que eles tinham envolvia o trabalho com cães. Porém, havia um problema: só havia, no centro de treinamento, um cachorro. Era um belo animal, e estava devidamente preparado para a atividade nas regiões mais inóspitas onde um soldado deve se engranzar. Então, todos os soldados usavam o mesmo cachorro, e a cada dia de treinamento, um deles ficava responsável pelo animal. A cada dia, um dos soldados aprendia a lidar com cães durante uma batalha real.
Ao final de um mês, todos eles estavam preparados, e todos eles sabiam como usar um cão para ajudar na batalha, caso fosse necessário.
E ocorreu que seu país entrou em guerra. Mas, dessa vez, em um campo de batalha real, cada um tinha um cachorro. As coisas agora seriam mais fáceis, e toda aquela preparação de um mês agora teria um significado mais prático.
Durante a investida, todos os cães começaram a brigar entre si. O barulho alertou as tropas inimigas, e o que se seguiu foi um massacre. Nenhum dos soldados sobreviveu.
É muito fácil treinar para ter um sentimento de cada vez, estar preparado para saber uma coisa de cada vez, e principalmente para perder uma coisa de cada vez. Mas quando acontece tudo e uma vez, nada do que passamos nos dá um abrigo seguro. Mas “uma vez no centro o perigo, os homens não temem mais”. Uma vez que tenhamos experimentado a sensação de que as coisas podem realmente estar perdidas, e no final acabar dividido entre aqui e fugir - só quando se sobrevive a isso, é que a gente pode agüentar de tudo.
Só assim treinamos todos os nossos soldados de uma vez.
Parte do treinamento que eles tinham envolvia o trabalho com cães. Porém, havia um problema: só havia, no centro de treinamento, um cachorro. Era um belo animal, e estava devidamente preparado para a atividade nas regiões mais inóspitas onde um soldado deve se engranzar. Então, todos os soldados usavam o mesmo cachorro, e a cada dia de treinamento, um deles ficava responsável pelo animal. A cada dia, um dos soldados aprendia a lidar com cães durante uma batalha real.
Ao final de um mês, todos eles estavam preparados, e todos eles sabiam como usar um cão para ajudar na batalha, caso fosse necessário.
E ocorreu que seu país entrou em guerra. Mas, dessa vez, em um campo de batalha real, cada um tinha um cachorro. As coisas agora seriam mais fáceis, e toda aquela preparação de um mês agora teria um significado mais prático.
Durante a investida, todos os cães começaram a brigar entre si. O barulho alertou as tropas inimigas, e o que se seguiu foi um massacre. Nenhum dos soldados sobreviveu.
É muito fácil treinar para ter um sentimento de cada vez, estar preparado para saber uma coisa de cada vez, e principalmente para perder uma coisa de cada vez. Mas quando acontece tudo e uma vez, nada do que passamos nos dá um abrigo seguro. Mas “uma vez no centro o perigo, os homens não temem mais”. Uma vez que tenhamos experimentado a sensação de que as coisas podem realmente estar perdidas, e no final acabar dividido entre aqui e fugir - só quando se sobrevive a isso, é que a gente pode agüentar de tudo.
Só assim treinamos todos os nossos soldados de uma vez.
domingo, 13 de dezembro de 2009
O Tempo e a Coragem
Um pouco de ar nos pulmões, e eu sempre acabo acordando pra mais um dia.
Ultimamente meus dias têm sido bem aproveitados, de certa maneira. Na maioria deles eu fico sem muita gente por perto. É nesses momentos, digo, que minha mente se purifica e apenas aquilo que eu realmente penso fica. Nesses momentos eu percebo que é possível que não haja nada nesse mundo que eu não possa compreender, embora não há nada nesse mundo que eu não possa perdoar. Com o tempo, alguém há de dizer, todo mundo é capaz de entender qualquer coisa. Sim, de fato isso pode ser verdade. Mas o que fazer quando o tempo do qual necessitamos não é o tempo do qual dispomos? Quantos erros alguém é capaz de cometer enquanto age sem saber o que realmente está acontecendo? E quando o problema não precisa de tempo para ser resolvido, e sim coragem?
Se tem uma coisa que eu aprendi com o exílio é que não se pode fugir por muito tempo de um problema. No fim, ele sempre acaba te encontrando e te deixando entre a cruz e a espada.
Voltando pra casa, na reta da UFV, eu me via de novo entre a cruz e a espada. Eu vi que precisaria de coragem, e agora ouso buscá-la em casa. As coisas na maioria das vezes não acontecem na melhor hora, mas na hora em que precisam, no fim das contas. E dessa vez eu vou tentar ouvir os meus próprios avisos - os sábios conselhos que dou a mim mesmo, agora que as coisas podem voltar a ser as mesmas, como há muito tempo não são.
Naquela reta eu ouço um grande amigo do passado me falando das verdades, alguns amigos do presente me falando da vida, e me lembro de uma grande amiga que me trouxe um presente: coragem.
Ultimamente meus dias têm sido bem aproveitados, de certa maneira. Na maioria deles eu fico sem muita gente por perto. É nesses momentos, digo, que minha mente se purifica e apenas aquilo que eu realmente penso fica. Nesses momentos eu percebo que é possível que não haja nada nesse mundo que eu não possa compreender, embora não há nada nesse mundo que eu não possa perdoar. Com o tempo, alguém há de dizer, todo mundo é capaz de entender qualquer coisa. Sim, de fato isso pode ser verdade. Mas o que fazer quando o tempo do qual necessitamos não é o tempo do qual dispomos? Quantos erros alguém é capaz de cometer enquanto age sem saber o que realmente está acontecendo? E quando o problema não precisa de tempo para ser resolvido, e sim coragem?
Se tem uma coisa que eu aprendi com o exílio é que não se pode fugir por muito tempo de um problema. No fim, ele sempre acaba te encontrando e te deixando entre a cruz e a espada.
Voltando pra casa, na reta da UFV, eu me via de novo entre a cruz e a espada. Eu vi que precisaria de coragem, e agora ouso buscá-la em casa. As coisas na maioria das vezes não acontecem na melhor hora, mas na hora em que precisam, no fim das contas. E dessa vez eu vou tentar ouvir os meus próprios avisos - os sábios conselhos que dou a mim mesmo, agora que as coisas podem voltar a ser as mesmas, como há muito tempo não são.
Naquela reta eu ouço um grande amigo do passado me falando das verdades, alguns amigos do presente me falando da vida, e me lembro de uma grande amiga que me trouxe um presente: coragem.
domingo, 22 de novembro de 2009
Redenção
De uma maneira um tanto feliz, eu aprendi algumas coisas interessantes no decorrer dos últimos meses. A primavera se dirige para seu último mês e a grama da UFV parece um pouco mais verde a cada dia. As noites ficam mais curtas, e os dias ficam mais longos.
Essa nova face do mundo a que fui apresentado, agora, parece menos amigável graças a uma valiosa lição que recebi: para que alguém tenha aquilo que quer, alguém tem que perder. Ora, eu mais do que ninguém deveria saber que tudo precisa de um equilíbrio, e aquele que tem medo de vencer sempre vai perder.
Digo isso porque acabei assistindo um amigo passar por praticamente a mesma coisa que eu um dia passei, e precisando da mesma ajuda que eu achei que deveria ter recebido. E não havia, nem provavelmente haverá, nada que eu possa fazer.
E o mundo vai fazer isso com aqueles que não forem capazes de obter por si mesmos aquilo que desejam, de alcançar aquilo que só tinham forças para tentar uma vez. E não digo isso pelo meu amigo, nem por mim. Digo por uma pessoa muito especial que algumas vezes eu deixei de valorizar, por simplesmente exigir muito mais do que ela é capaz de me oferecer - ou de oferecer a qualquer outro. Eu percebi que não tenho a melhor irmã do mundo, mas é exatamente a que eu precisava ter. E essa completude, essa sensação estranha e maravilhosa de que tudo acabou acontecendo como devia, me acendeu uma chama para o futuro. Nós nascemos no mesmo lugar, e fomos criados no mesmo lugar, mas nossa diferença, ao meu ver, pode realmente ter nos completado, ao longo dos anos. Vejo isso claro como água agora.
Minha cidadela começa a tomar nova forma, pelas lições que resolvi botar em prática. Tenho ainda muito trabalho até o verão chegar, e mais uma batalha há de vir. Talvez dessa vez eu a enfrente com um sorriso, e talvez esteja de conciência tranquila para, como diria uma amiga, "machucar as pessoas certas para ter o que quer.". Pelo menos vou tentar recuperar o que fiz às pessoas erradas, por enquanto.
Talvez eu te ame agora, só não sei dizer ainda.
Essa nova face do mundo a que fui apresentado, agora, parece menos amigável graças a uma valiosa lição que recebi: para que alguém tenha aquilo que quer, alguém tem que perder. Ora, eu mais do que ninguém deveria saber que tudo precisa de um equilíbrio, e aquele que tem medo de vencer sempre vai perder.
Digo isso porque acabei assistindo um amigo passar por praticamente a mesma coisa que eu um dia passei, e precisando da mesma ajuda que eu achei que deveria ter recebido. E não havia, nem provavelmente haverá, nada que eu possa fazer.
E o mundo vai fazer isso com aqueles que não forem capazes de obter por si mesmos aquilo que desejam, de alcançar aquilo que só tinham forças para tentar uma vez. E não digo isso pelo meu amigo, nem por mim. Digo por uma pessoa muito especial que algumas vezes eu deixei de valorizar, por simplesmente exigir muito mais do que ela é capaz de me oferecer - ou de oferecer a qualquer outro. Eu percebi que não tenho a melhor irmã do mundo, mas é exatamente a que eu precisava ter. E essa completude, essa sensação estranha e maravilhosa de que tudo acabou acontecendo como devia, me acendeu uma chama para o futuro. Nós nascemos no mesmo lugar, e fomos criados no mesmo lugar, mas nossa diferença, ao meu ver, pode realmente ter nos completado, ao longo dos anos. Vejo isso claro como água agora.
Minha cidadela começa a tomar nova forma, pelas lições que resolvi botar em prática. Tenho ainda muito trabalho até o verão chegar, e mais uma batalha há de vir. Talvez dessa vez eu a enfrente com um sorriso, e talvez esteja de conciência tranquila para, como diria uma amiga, "machucar as pessoas certas para ter o que quer.". Pelo menos vou tentar recuperar o que fiz às pessoas erradas, por enquanto.
Talvez eu te ame agora, só não sei dizer ainda.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
"Será a mesma coisa?"
Sarah - Ray LaMontagne
Ray LaMontagne - Sarah
When we first met we were kids,
Quando nos encontramos pela primeira vez éramos crianças,
We where wild, we were insects.
Éramos livres, éramos insetos.
And after a while, i grew coarse,
E depois de um tempo eu fiquei rude,
I grew cold, i grew reckless.
Fiquei frio, fiquei descuidado.
I hold this memory, hold you so close to me,
Eu me agarrei a essa memória, mantive você perto,
Whispered were we always happy.
Murmurei que sempre seríamos felizes.
Lately it feels like i'm asleep
Mais tarde parecia que eu estava dormindo
And i just can't wake up.
E não conseguia acordar.
Pacing the floor, want to call,
Me arrastando, tentando chamar,
But i can't so i hang up.
Mas não podia, então me desliguei.
Sharing a secret on the train
Dividindo um segredo em um trem
With a lady who's crying has ruined her make up.
Com uma mulher cujo choro estragou a maquiagem.
Now i see just how young,
Agora eu percebo o quão jovem,
How scared i was.
Quão assustado eu era.
Eyes closed tight,
Olhos bem apertados,
Throwing puch after punch at the world.
Atirando soco após soco em todo mundo.
Sarah, is it ever gonna be the same?
Sarah, algum dia será a mesma coisa?
Sarah, is it ever gonna be the same?
Sarah, algum dia será a mesma coisa?
Said goodbye to all the places i used to go.
Disse adeus a todos os lugares que ía.
Said goodbye to all the faces i used to know
Disse adeus a todos os rostos que conhecia.
Nothing lasts forever.
Nada dura para sempre.
I guess by now, i should know.
Acho que agora eu deveria saber.
I should know.
Eu deveria saber.
There ain't a thing i can say
Não há nada que eu possa dizer
That will ever repair.
que não possa consertar.
And you, who had so much advice,
E você, que teve tantos conselhos,
And yet couldn't share.
E não pode compartilhar.
Maybe someday, we will look back at this
Talvez algum dia, nos lembraremos disso
And we'll smile, but right now i can't bear.
e vamos rir, mas agora eu não posso suportar.
Now i see just how young,
Agora eu percebo o quão jovem,
How scared i was.
Quão assustado eu era.
Eyes closed tight,
Olhos bem apertados,
Throwing puch after punch at the world.
Atirando soco após soco em todo mundo.
Sarah, is it ever gonna be the same?
Sarah, algum dia será a mesma coisa?
Sarah, is it ever gonna be the same?
Sarah, algum dia será a mesma coisa?
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Os Primeiros Quinze Minutos
"De tudo um pouco". Essa foi a sensação que emanava de uma rodoviária, perdida no mundo. Um pacto que foi feito por uma razão que já não mais se fazia presente, chegava ao fim.
De tudo um pouco, pelo fato de que aquela seria a última vez que um evento fantástico aconteceria, e todo o Universo parecia olhar para aquela porta de ônibus, onde apenas duas pessoas compreenderiam a maravilha do nascimento de uma nova vida, e a fatal imponderabilidade do tempo correndo.
Na minha mão, um envelope. Nas mãos dela, uma mala. Tinha que ser assim, pois foi esse o acordo. Aquilo que acontecera tantas vezes nos últimos seis meses, agora estava acontecendo pela última vez. E era irremediável. E era fantástico. Ambos completamos nossa parte na vida um do outro: nossa parte em um acordo sagrado. Ônibus sempre demoram para chegar, mas nunca para ir embora. Tudo um pouco foi embora, e numa única respiração se foi todo o resto: a ansiedade, a agonia, até a tristeza. Para aquelas pessoas ao redor, que haviam reconhecido a doce despedida que havia se iniciado - e por fim tecia seus últimos fios - a face nova do mundo ludibriava e eternecia. Nascia uma pequena vila de pessoas que sabiam que o mundo não é só trevas e luz: havia um meio termo e ele estava ali. As trevas do adeus misturadas à luz de o quanto ela havia os modificado.
E foi assim: eu a havia mostrado como as coisas funcionam, e sob quais regras somos formados, e ela havia me mostrado o quanto nem lógica nem sentimento podem ser fontes seguras. É preciso uma mente para mediar ambos.
Voltei pra casa, nos primeiros quinze minutos, e cada rua, cada esquina, assumiam em si uma importância colossal. Cada segundo agora era testemunha de um homem transfigurado pela vida, e pelas suas reviravoltas. Um sonho morreu, e outro veio assumir seu lugar. Agora existem armas para lutar por ele: uma cidadela há de ser reconstruída para abrigá-lo.
Quando cheguei, abri o envelope. No último parágrafo dizia: "Agora não somos os mesmos de quando começamos, e é isso o que significa. Você cumpriu sua parte, e me mostrou o que eu precisava ver. E você pode não achar, mas eu cumpri a minha. Agora você tem um outro mundo, e você se tornou uma pessoa melhor, sem sequer perceber."
Era tudo o que eu precisava ouvir.
De tudo um pouco, pelo fato de que aquela seria a última vez que um evento fantástico aconteceria, e todo o Universo parecia olhar para aquela porta de ônibus, onde apenas duas pessoas compreenderiam a maravilha do nascimento de uma nova vida, e a fatal imponderabilidade do tempo correndo.
Na minha mão, um envelope. Nas mãos dela, uma mala. Tinha que ser assim, pois foi esse o acordo. Aquilo que acontecera tantas vezes nos últimos seis meses, agora estava acontecendo pela última vez. E era irremediável. E era fantástico. Ambos completamos nossa parte na vida um do outro: nossa parte em um acordo sagrado. Ônibus sempre demoram para chegar, mas nunca para ir embora. Tudo um pouco foi embora, e numa única respiração se foi todo o resto: a ansiedade, a agonia, até a tristeza. Para aquelas pessoas ao redor, que haviam reconhecido a doce despedida que havia se iniciado - e por fim tecia seus últimos fios - a face nova do mundo ludibriava e eternecia. Nascia uma pequena vila de pessoas que sabiam que o mundo não é só trevas e luz: havia um meio termo e ele estava ali. As trevas do adeus misturadas à luz de o quanto ela havia os modificado.
E foi assim: eu a havia mostrado como as coisas funcionam, e sob quais regras somos formados, e ela havia me mostrado o quanto nem lógica nem sentimento podem ser fontes seguras. É preciso uma mente para mediar ambos.
Voltei pra casa, nos primeiros quinze minutos, e cada rua, cada esquina, assumiam em si uma importância colossal. Cada segundo agora era testemunha de um homem transfigurado pela vida, e pelas suas reviravoltas. Um sonho morreu, e outro veio assumir seu lugar. Agora existem armas para lutar por ele: uma cidadela há de ser reconstruída para abrigá-lo.
Quando cheguei, abri o envelope. No último parágrafo dizia: "Agora não somos os mesmos de quando começamos, e é isso o que significa. Você cumpriu sua parte, e me mostrou o que eu precisava ver. E você pode não achar, mas eu cumpri a minha. Agora você tem um outro mundo, e você se tornou uma pessoa melhor, sem sequer perceber."
Era tudo o que eu precisava ouvir.
domingo, 18 de outubro de 2009
Um Menino de Doze Anos
Eu me lembro bem que era sábado.
Acordei meio indisposto, e com uma caneca de porcelana de chá, fui pra minha varanda, sentar no meu banco e tentar botar a cabeça no lugar pra começar mais um dia. Olhar em volta, quase sempre, faz bem. Você quase se esquece de que as coisas não estão ali só porquê você quer.
Na minha vista, naquele dia, havia uma gincana - dessas de escola do ensino fundamental. Como não tinha nada melhor pra fazer, fiquei ali, por um instante, assistindo uma corrida de meninos de doze anos. Com a corrida já no fim, eles pareciam cansados, e um deles estava ficando pra trás. Ele cai. Provavelmente esfolou um joelho no concreto. Provavelmente aquela teria sido a hora de ficar no chão - de esperar que um pai ou uma professora venha levantá-lo. De lamentar. Eu baixei a cabeça, e sorri pra mim mesmo: o mundo não pode ser mesmo perfeito.
Quando levantei a cabeça, ele levantou, bravo comigo. Ele levantou e continuou correndo, mesmo quando já não havia motivo, mesmo quando já não havia esperança. E enquanto todos os seus colegas cruzavam a linha de chegada e punham as mãos entre os joelhos, cansados, aquele garoto chegou em último, mas correu além daqueles pobres vencedores - correu até um muro de pedra no final da pista, para longe das comemorações. Aquele muro era sua vitória. Naquele muro ele tinha chegado primeiro.
Nele já não havia raiva, não havia lamento - havia a conciência do dever cumprido para consigo mesmo - a vitória que se consegue para que ninguém veja. Nesse momento, ele olhou pra mim denovo, e eu o aprovei com um sorriso.
Ele sabia, de certa forma, que nós estavamos ligados por um objetivo em comum: lutar por coisas que ninguém compreende, ainda que sem motivo, sem esperança.
E eu, naquele momento, estava caido com os joelhos esfolados, e aqueles olhos de um menino de doze anos me convenceram a me levantar e correr.
Eu levantei e corri.
Acordei meio indisposto, e com uma caneca de porcelana de chá, fui pra minha varanda, sentar no meu banco e tentar botar a cabeça no lugar pra começar mais um dia. Olhar em volta, quase sempre, faz bem. Você quase se esquece de que as coisas não estão ali só porquê você quer.
Na minha vista, naquele dia, havia uma gincana - dessas de escola do ensino fundamental. Como não tinha nada melhor pra fazer, fiquei ali, por um instante, assistindo uma corrida de meninos de doze anos. Com a corrida já no fim, eles pareciam cansados, e um deles estava ficando pra trás. Ele cai. Provavelmente esfolou um joelho no concreto. Provavelmente aquela teria sido a hora de ficar no chão - de esperar que um pai ou uma professora venha levantá-lo. De lamentar. Eu baixei a cabeça, e sorri pra mim mesmo: o mundo não pode ser mesmo perfeito.
Quando levantei a cabeça, ele levantou, bravo comigo. Ele levantou e continuou correndo, mesmo quando já não havia motivo, mesmo quando já não havia esperança. E enquanto todos os seus colegas cruzavam a linha de chegada e punham as mãos entre os joelhos, cansados, aquele garoto chegou em último, mas correu além daqueles pobres vencedores - correu até um muro de pedra no final da pista, para longe das comemorações. Aquele muro era sua vitória. Naquele muro ele tinha chegado primeiro.
Nele já não havia raiva, não havia lamento - havia a conciência do dever cumprido para consigo mesmo - a vitória que se consegue para que ninguém veja. Nesse momento, ele olhou pra mim denovo, e eu o aprovei com um sorriso.
Ele sabia, de certa forma, que nós estavamos ligados por um objetivo em comum: lutar por coisas que ninguém compreende, ainda que sem motivo, sem esperança.
E eu, naquele momento, estava caido com os joelhos esfolados, e aqueles olhos de um menino de doze anos me convenceram a me levantar e correr.
Eu levantei e corri.
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